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Variações para melancolia e electrónicas

Texto: NUNO GALOPIM

O segundo álbum da dupla norte-americana Beacon pode não querer mudar o mundo. Mas traz canções melancólicas que poderiam caber no FM se a política das modas e das cautelas não ditasse as playlists.

Os nomes de Thomas Mullarney III (sim, o terceiro) e Jacob Gossett podem não ser ainda familiares para muitos. São nova-iorquinos e, como Beacon, formam uma dupla que em 2012 se apresentou com o álbum The Ways We Separate, pelo qual desenhavam os primeiros ensaios para uma abordagem ao ralenti a ferramentas e formas possíveis de trabalhar a canção pop dentro do quadro das electrónicas do nosso tempo. Quatro anos depois, mas com um EP concentrado na exploração de ritmos mais intensos pelo meio, regressam com um disco que pede o nome emprestado ao universo da mecânica de relógios, escolha que não parece desadequada perante uma música tão disciplinadamente arrumada na hora de lhe medirmos a pulsação concentrando de resto o essencial da instrumentação no sublinhar das estruturas rítmicas e no desenho de cenários também eles feitos de módulos geometricamente ordenados.

Podíamos chamar a Escapements um álbum de ressaca para o fim da noite, já que por algumas das suas 11 canções passam frequentes momentos em que um surto de fôlego rítmico as poderia transportar para a pista de dança, mas algo parece travar sempre esses cenários, como a força que falta depois de uma longa noite vivida. Mas a mesmo desencanto que chega quando a energia parece já não habitar os corpos cruza-se aqui com narrativas que sugerem contos de amores terminados. E assim, entre o chill out depois da euforia e o vazio que fica depois de uma separação, a melancolia domina a paisagem. E essa é uma das vozes mais presentes nestas canções.

A outra é a de Thomas, de alma inspirada por matrizes do rhythm and blues, interpretando as trovas de mágoa e lamento que, discretamente, acompanham fundos desenhados a electrónicas sob asceta condução minimalista.

De caminhos da house a uma incursão desacelerada por caminhos do drum’n’bass, explorando os contrastes entre a voz e as electrónicas, entre o desencanto das palavras e sons que (mesmo digitais) estão longe de ser coisa fria, faz-se um disco que, mesmo não trazendo à canção feita com electrónicas a surpresa formal que nos chegou na estreia de um James Blake ou a excelência da composição que há um ano escutámos na estreia do projeto Ghost Culture, mostra um corpo de temas que só não vamos escutar nas rádios e ver nos festivais porque aos Beacon não acenam nem os delírios de fama fácil e mais do mesmo que dominam os patamares mainstream nem a caução cool dos fazedores de opinião indie e arredores. O disco, que habita aquela terra difícil entre o potencial mainstream e formas mais próximas do que emerge em terreno mais “alternativo” (mas na verdade feito de formas acessíveis e de digestão bem simples), merece uma visita. Porque mesmo longe de ser daquelas obras que marcam um ano, tem uma mão cheia de temas que traduzem expressões possíveis de melancolia em travo electrónico ao jeito do que são os caminhos pelos quais se faz a música pop do nosso tempo.

Beacon
“Escapements”
Ghostly International
★★★

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