Adolescência roubada
Texto: DIOGO SENO
Mustang é um filme de estreia, o que se nota, nas suas forças e fraquezas. Por um lado, tem uma frescura, que não tem só a ver com aquilo que é retratado, e com a impetuosidade das retratadas, mas com a ingenuidade do olhar. Por outro, a força do retrato fica mais frágil quando o filme tenta, embora essa tentativa seja modesta, de se tornar mais político. A força da mensagem, e dos argumentos, aqui vem pela entrega da realizadora e das suas actrizes à verdade dos corpos e emoções.
Cinco irmãs estão a despertar para a sensualidade típica da adolescência, numa pequena vila da Turquia. As aulas acabam e dirigem-se para a praia. O assalto sensorial do início do filme adequa-se às emoções à flor da pele que animam aquelas jovens, libertas dos constrangimentos sociais impostos pelos mais velhos. É precisamente a rigidez desses costumes que leva à denúncia, por uma vizinha, das irmãs à sua família (órfãs, vivem com o tio e com a avó).
Impetuosas, as irmãs não interrompem o seu contacto e os namoriscos com outros rapazes e, receosos da sua reputação, tio e avó sujeitam-nas a uma prisão domiciliária cada vez mais restrita, ao mesmo tempo que, apressadamente, as apresentam a outras famílias para casamentos arranjados.
É no aborrecimento do quotidiano caseiro, feito de tarefas domésticas e lições para a virtude da vida de casada, que estas raparigas vão ver os seus laços estreitados e testados.
Há qualquer coisa de Virgens Suicidas neste cenário, com as irmãs aprisionadas pela família, sufocadas pelos receios dos que delas cuidam. Mas se no filme de Sofia Coppola era tudo mais etéreo, e as irmãs Lisbon um mistério sem resolução, em Mustang caminha-se mais rente à terra. O tom também é luminoso e lânguido, mas aquilo que sufoca a adolescência destas irmãs é a sociedade patriarcal e machista em que se inserem.
O ponto de vista é o da inocência, sendo a história narrada pela irmã mais nova. É esta pequena que mais dificuldade tem em entender as regras que pautam a sua vivência e a das suas irmãs, e é ela também que empreende uma fuga breve que lhes devolve alguma liberdade.
O filme acaba por tombar numa estrutura episódica ao seguir os rituais de apresentação das irmãs aos seus pretendentes. Aqui, começam a ser introduzidas algumas personagens e situações que tornam a obra mais frágil, sobretudo com a escalada de injustiças a que as irmãs são sujeitas.
No entanto, a força das intérpretes e o olhar seguro da realizadora, resgatam o filme da manipulação. Imagens como as irmãs a banharem-se no pouco sol que entra no quintal, pés contra as grades, transmitem de forma clara e modesta, a vivência destas raparigas a quem a liberdade foi roubada.
É por causa dessa entrega a estes corpos, este retrato desta época enquanto um conjunto de sensações voláteis, desta relação das irmãs enquanto uma de cumplicidade, de pactos secretos e amor incondicional, independentes da sociedade que as limita, que o filme resulta assim comovente. Mesmo até ao final, quando uma janela de liberdade se abre numa Istambul banhada em luz. É lá que a adolescência e a inocência que restam vão encontrar, ao som da bela banda sonora de Warren Ellis, a esperança de uma mudança que vem embrulhada num solidário abraço.

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