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O mundo de Hollywood sob o síndrome do telefilme

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

Com “Trumbo”, de Jay Roach, voltamos à Caça às Bruxas e a uma época problemática para a indústria do cinema.

Hollywood tem muitas histórias para contar. São as dos filmes que ultrapassaram gerações e que ainda hoje persistem no imaginário coletivo, mas também há outro tipo de histórias. Desde o fascínio provocado pelo glamour do star-system até aos escândalos das mais variadas índoles (e muitos pouco ou nada têm que ver com o grande ecrã), passando pelas vidas privadas dos magnatas, dos atores famosos, dos realizadores de topo. Coisas insólitas que continuamos a descobrir no século XXI.

Hollywood também é, por isso, feita de segredos, de mentiras, de fenómenos do estrelato que desapareceram sem razão aparente, de competição entre estúdios, e de ódio entre os vários setores de poder nos bastidores da rodagem de muitos clássicos. E o McCarthyismo, época vulgarmente designada por “caça às bruxas”, revelou todas as facetas da indústria e dos seus membros, para o bem e para o mal. O senador Joseph McCarthy decidiu investigar, sem dó nem piedade (e através de métodos com características duvidosas), a ligação das elites norte-americanas ao partido comunista do país. Até hoje, as feridas desses anos parecem não ter desaparecido. A indústria mudou, num tempo em que a necessidade de sobrevivência e o desespero de algumas vedetas se confundiu com o espírito de equipa e o uso da razão de outros, que se opuseram a McCarthy sem medo de futuras consequências.

Quando a política (e acima de tudo, o fanatismo) decide interferir na arte, os resultados nunca podem ser agradáveis. Que o digam todos os realizadores, argumentistas e atores que tiveram problemas na sua vida profissional porque, simplesmente, decidiram aderir a uma ideologia diferente – ou que, até, quiseram apenas defender a liberdade de expressão dos colegas, num país que estava mais preocupado com ameaças nucleares que poderiam (ou não) ser iminentes, e que queria eliminá-las sem olhar a meios para atingir os seus fins.

Deste período negro da História dos EUA conhecemos algumas histórias emblemáticas, e algumas nem têm propriamente a ver com o cinema. Como é o caso do jornalista Edward Murrow, que enfrentou o senador McCarthy e a sua ideologia (numa série de acontecimentos surpreendentes que deram origem a Boa Noite, e Boa Sorte, de George Clooney), e como é, infelizmente, o caso da denúncia de Elia Kazan nas sessões de inquérito, algo de que mais tarde o realizador se iria arrepender, e que nunca o abandonou: em 1999, quando subiu ao palco do Dorothy Chandler Pavilion para receber um Oscar honorário, Kazan foi aplaudido por parte da assistência, e outros decidiram protestar contra esta homenagem, por ter prejudicado a indústria com as suas declarações, feitas 47 anos antes.

Uma outra história, bem mais dramática no tempo destas “caçadas”, é a de Dalton Trumbo, que o realizador Jay Roach nos propõe recriar neste filme. Argumentista com uma enorme reputação, que colaborou com alguns dos maiores realizadores dos anos 40 e 50, Trumbo viu a sua carreira ameaçada pelas investigações de McCarthy. Para sobreviver, não denunciou os amigos, e arranjou vários trabalhos clandestinos, para pequenas produtoras, utilizando nomes falsos. Trumbo segue essas peripécias, contrastando-as com as súbitas viragens da opinião pública e do mundo hollywoodesco, contrapondo imagens reais e reconstituições precisas de acontecimentos verídicos, e olhando ao de leve para a vida privada do autor.

Sem ser demasiado ligeiro na sua narrativa, e sem que o glamour se sobreponha à necessidade de contar bem esta grande história real, o argumento acerta em manter o seu ritmo e uma relativa sobriedade emocional. Ao contrário de outras investidas recentes neste tipo de “filmes sobre filmes”, como o insosso Hitchcock, Trumbo não é excessivamente afetado pelo lado lendário dos “bonecos” que retrata – mas não deixa por isso de viver sob o síndrome do telefilme. É curioso que um filme cinematográfico, que se centra exatamente em questões ligadas a essa arte, não consiga ser mais apelativo no que ao cinema diz respeito. Trumbo é apenas um retrato agradável, mas visual ou cinematograficamente irrelevante, de uma grande personalidade, e que ganha pontos graças à força do seu argumento. É a única coisa do filme que faz jus à realidade que ambiciona recuperar, juntamente com o bom desempenho de Bryan Cranston.

O filme é um pretexto para um “one man stand”, o de Cranston, que veste a pele de Trumbo sem que o mesmo se torne numa caricatura. Ao contrário de outras figuras que por aqui aparecem (como John Wayne, ou todas as outras caras conhecidas que parecem ter, aqui, a única função de odiar Trumbo), o protagonista não tem unidimensionalidade nem serve apenas para cumprir um papel expositivo.

É a força da construção psicológica de Trumbo (e o seu ativismo político, uma espécie de “comunismo caviar”, como se poderia designar na linguagem corrente) que nos faz não torcer o nariz às leviandades da realização, a certas interpretações forçadas, à infantilidade de algumas ideias narrativas menos felizes, aos erros históricos do guião, e à completa maquinização do processo técnico (uma montagem rotineira, com planos certinhos e previsíveis, etc). Mas dentro do género, já vimos bem pior – e Trumbo consegue cumprir o mínimo do que promete: uma abordagem leve e pouco aprofundada, mas muito divertida, aos demónios de Hollywood.

Graças a uma figura histórica relevante para a cultura norte-americana do século XX, e a uma certa perspicácia na forma como o seu percurso nos é (re)contado, Trumbo acaba por ser menos superficial do que se poderia prever, com um argumento que, à falta de qualidades excecionais, consegue, à sua maneira, fazer justiça a um argumentista genial, que lutou para voltar a obter o mérito pelo seu trabalho numa América em constantes contradições sociais e culturais.

Trumbo
Realizador: Jay Roach
Elenco: Bryan Cranston, Diane Lane, Helen Mirren, Louis C.K.
Distribuidora: NOS Audiovisuais
★★★

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