Tarkovsky monumental
Texto: JOSÉ RAPOSO
Numa obra toda ela marcada por uma profunda admiração perante o mistério da existência, O Espelho é talvez a obra onde Andrei Tarkovsky melhor consegue formalizar essa impressão do Mundo no Homem, fazendo da experiência estética do cinema um dos elementos fulcrais da humanidade que daí emerge. A memória da infância de Tarkovsky, o centro a partir do qual a sua identidade se vai esculpindo, é revisitada por um aparato cinematográfico arquitectado e trabalhado a partir de um meticuloso trabalho de montagem que faz da experiência do cinema uma alucinação, uma manifestação próxima do religioso. O Espelho mostra aquilo que o cinema também pode ser: mais do que um acrescento ao mundo, uma cinematografia do real que nos abre as portas à experiência dos elementos, da História, da revelação de um quotidiano enigmático e atravessado por uma vitalidade universal que nos une a todos. Na sala de cinema, sim, mas sobretudo no aqui e no agora, depois dessa experiência que é ver Tarkovsky no grande ecrã, em comunidade.
De certa maneira, e isso em muito tem contribuído para a contínua revisitação de uma obra como O Espelho, o que mais impressiona no filme de Tarkovsky não são os detalhes biográficos ou mais concretos desse testemunho pessoal, mas antes a forma como essa passagem pelo mundo se cruza com o fantasma da História, imparável e incompreensível. O filme aborda três períodos distintos, que Tarkovsky irá entrelaçar de modo a revelar uma continuidade transcendente, impossível de ser apreendida através de uma experiência do tempo ancorada num presente sempre fugaz, mas que o cinema permite revelar. O trabalho de montagem não se encontra já inspirado por um pendor conceptual, que tanto marcou uma parte importante do cinema russo: no lugar de uma montagem de atrações, onde a justaposição de sequências distintas como que suportava a ilustração de uma ideia, um “conceito”, o trabalho de montagem de Tarkovsky procura encontrar dentro da lógica interior do próprio plano uma espécie de ritmo universal que se manifesta no tempo, na duração da passagem do tempo. Quando as imagens de arquivo rompem o espaço dramático, o que está em causa não é um exercício de apropriação ou de citação; no contexto específico da obra, é a própria História que ali se revela, lançando a sua sombra sobre as circunstâncias particulares daqueles personagens.
Tarkovsky recorre a várias estratégias neste seu esboço de uma cinematografia do tempo,. Para além de estender a acção ao longo de três períodos – um presente onde se encontra o narrador nos últimos dias de vida (por volta de 1974), a pensar e a recordar sobre a sua vida, e os anos que precedem e se estendem ao longo da Segunda Guerra Mundial, Tarkovsky utiliza os mesmos atores na interpretação de diferentes personagens. Natalia e Maria, respetivamente a mãe e a mulher do narrador, são interpretadas pela mesma atriz, e essa é a mesma solução encontrada para acentuar a continuidade entre o narrador e o seu filho: o mesmo ator dá corpo ao narrador enquanto adolescente, e ao seu filho enquanto jovem.
Pela ambição absoluta do projecto estético de Tarkovsky, é difícil encontrar ou pensar numa linhagem direta entre o seu trabalho e o cinema contemporâneo. Terrence Malick? Béla Tarr? Andrei Zvyagintsev? Mas são sobretudos retrospetivas como esta que contribuem para o diálogo entre as possibilidades das formas do passado e uma contemporaneidade onde a figura do realizador se encontra próxima do esgotamento.
O filme volta a ser exibido no Cinema Nimas nos dias 4, 5 e 15 de março, em sessões às 13.00, 15.05, 17.10, 19.20 e 21h30.
Pode consultar aqui a totalidade dos horários do ciclo Tarkovsky.

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