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“Trepalium”: Apocalipse laboral

Texto: JOSÉ MIGUEL SARDO

O trabalho não tem futuro? O canal Arte propõe uma série de ficção científica “social” baseada no tema do emprego. Uma viagem a um mundo dividido entre 80% de desempregados e 20% de ativos. O retrato de um “apartheid neoliberal”.

Trepalium. O nome da série francesa que estreou na semana passada, no canal franco-alemão Arte, encerra todo o paradoxo do trabalho em plena crise económica, quando os discursos sobre a retoma e as promessas de combate ao desemprego contrastam com uma população ativa obrigada a sacrificar os direitos que, durante décadas, representaram o chamado « progresso social ». Trepalium é a palavra latina para trabalho, mas também o nome do instrumento de tortura formado por três estacas, utilizado para castigar os servos durante os tempos da escravatura. Entre os excluídos do emprego e os subjugados a um patrão, neste caso Aquaville, uma poderosa empresa de distribuição de água, a série de seis episódios retrata uma sociedade ameaçada pelas tensões crescentes entre os 80% de desempregados e os 20% de ativos, num futuro próximo, sem data marcada.

 

Almoço em 17 minutos
Numa cidade, cujo nome e organização se confundem com o da empresa na origem da segregação laboral, um muro gigantesco separa a « zona », o local inóspito onde sobrevivem os sem emprego há pelo menos uma geração, do centro, onde os funcionários vivem sob a constante ameaça de demissão. De um lado do muro, num cenário pós-apocalíptico, a « zona » é o território da maioria de excluídos onde os seus habitantes lutam pela sobrevivência, por entre ruínas, crime e solidariedade, e uma escola comunitária onde um professor teoriza sobre a possibilidade de viver sem trabalho sem estar condenado à exclusão e à pobreza (uma piscadela de olho ao debate na Finlândia sobre um rendimento mínimo universal). Do outro lado, num universo de condomínios fechados, escadarias rolantes de hall de hotel de cinco estrelas, colarinhos brancos arredondados e carros de coleção dos anos cinquenta (!), os “ativos” ilustram o paradoxo de uma vida ritmada apenas pelo trabalho. No mundo dos “ativos”, controlado a todos os níveis pela poderosa Aquaville e uma maquiavélica primeira-ministra, esposa do ministro do Trabalho, os quadros que aspirem a uma promoção são obrigados a despedir o melhor amigo, ou a fechar os olhos à violação da esposa pelo presidente da empresa – tecnicamente « apoio à candidatura do marido » – durante os testes de seleção.

 

Em corredores intermináveis de betão, onde os trabalhadores por vezes desfalecem ou morrem de síncope, os empregos limitam-se à gestão de dados com um estranho programa informático com laivos de Tetris, entre pausas para almoço de 17 minutos e tupperwares táteis que se fecham ao final da “hora” da refeição.

 

Progresso Social
Como em todas as distopias, a história inicia-se com uma situação familiar, caricaturizada num tempo futuro. Após o sequestro do ministro do Trabalho, durante uma visita à “zona”, um grupo de ativistas consegue forçar o governo a contratar 10 mil “zonenses”, sob um programa inédito batizado “emprego solidário”, destinado a garantir a paz social. A série desenrola-se à volta do encontro entre dois mundos, quando uma “inútil” é atribuída a um casal de “ativos” à beira da expulsão. A temática do stress e dos suicídios no trabalho (certamente inspirada em casos como o da vaga de suicídios durante o programa de reestruturação da telefónica France Telecom), da exclusão social, da competição extenuante, mas também da corrupção política, a questão dos refugiados económicos e mesmo o tema do aquecimento global, são abordados na série. Na “zona”, a maioria de desempregados é obrigada a drogar-se para combater a sede, face à escassez de água, controlada, como tudo o resto, pela magnânime Aquaville. A primeira série de ficção científica francesa promete deixar-nos a pensar nos prós e contras de um mundo sem emprego. Ao trabalho, programadores das televisões nacionais .

 

Trepalium.
Série realizada por Vincent Lanoo.
Produção : Arte France. 6x52mins.
Difusão dos últimos três episódios : Quinta-feira, 18 de fevereiro às 19h50 (hora portuguesa) O DVD foi lançado no dia 3.
Sítio da Série aqui.

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