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Quando um filme incomoda

Texto: NUNO GALOPIM

Chegou aos ecrãs nacionais “Muito Amadas”, um mergulho no universo de quatro trabalhadoras do sexo em Marraquexe que se revela nos antípodas do glamour romântico da memória de Julia Roberts em “Pretty Woman”

Foi uma das várias razões pelas quais as secções paralelas da Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores (passou em concreto nesta última) estiveram tão sob o foco das atenções na última edição do Festival de Cannes. E, quando chegou a vez de estrear no seu país de origem, o filme foi impedido de chegar às salas de cinema, chegando até a atriz Loubna Abidar a ter de lançar o alerta por estar a receber ameaças de morte. O filme do marroquino Nabil Ayouch, que mergulha no mundo da prostituição em Marraquexe, incomodou. E muito.

Muito Amadas nasceu depois de o realizador ter desenvolvido um demorado trabalho de campo, falando com cerca de 200 trabalhadoras do sexo. E, mesmo estando longe de procurar fazer do filme um documentário sobre o tema ou de querer seguir as pistas do realismo social, revela um retrato que traduz choques em cadeia com jogos de aparências, códigos morais e comportamentos ensopados em medos e complexos.

Nabil Ayouch segue essencialmente o quotidiano de um grupo de mulheres que partilham um apartamento, juntamente com um motorista que as leva e segue a todo o lado. Sem filtro, ouvimo-las a falar de si, do seu dia a dia, do que viram e lhes aconteceu. Uma franqueza dura, mas bem-humorada, que contrasta com toda a encenação com que vivem depois numa villa que nessa noite acolhe um bordel. Encenação que, por sua vez, está nos antípodas da realidade que as espera ou de passagem por um hospital, numa visita a casa onde uma ouve a mãe a dizer-lhe que prefere que não regresse ali porque se dizem coisas sobre si ou até mesmo quando uma delas é detida ao tentar defender uma das amigas sob ataque, revelando-se então um outro domínio que acentua a hipocrisia e abuso de poder de figuras-satélite que cercam o seu mundo.

Nabil Ayouch não mergulha contudo num caldeirão de drama miserabilista estas mulheres ou o amigo, também trabalhador do sexo, com quem passam uma noite de conversa. E lembra que há um fulgor de vida em cada uma destas figuras, uma carapaça em construção que ajuda a levantar atitudes de defesa. E é da capacidade de observação e comentário destas mulheres que não se vergam, não fogem nem se rendem a um papel incolor na sociedade que nasce talvez a maior fonte de incómodo do filme.

 

“Muito Amadas”
Realização: Nabil Ayouch
Com: Loubna Abidar, Asmaa Lazrak, Halima Karaouane, Sara Elmhamdi Elalaoui
Distribuição: Leopardo Filmes

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