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A indecisão entre a dança e a eletrónica da noite

Texto: ANDRÉ LOPES

Enquanto a espera pelo sucessor de “Fin” (2012) se faz demorar, a noite de 4 de Março ajudou-nos a perceber o tipo de preferências e sensibilidades que poderão talhar os próximos trabalhos de John Talabot.

Foto: Adrià Cañameras

Voltámos ao Lux para saber das boas-novas do produtor espanhol que, tendo-se estreado em 2009, conheceu um reconhecimento maior com a inclusão na Young Turks: editora de nomes como SBTRKT, Sampha e The XX. Estes últimos acabaram por levar John Talabot em digressão, expandindo o alcance a sua obra a um público mais vasto e que não faz da pista de dança o seu habitat. Essa transversalidade no que diz respeito à veemência com que tantos (e tão diferentes) escutam a música de John Talabot conheceu um momento maior quando, em 2014, Fin se fez ouvir com todas as qualidades de um produto capaz de combinar lógicas da eletrónica e da música house de um modo vencedor que nunca esquece o ritmo como modalidade de locomoção principal. Um disco para luminosidades reduzidas, onde sugestões de dança não são exatamente prioritárias.

Porém, o que ouvimos durante o DJ set que John Talabot apresentou esta noite serve como testemunho de que a música eletrónica vive, respira e dialoga diretamente com espaços de entretenimento noturno. Sabemo-lo como alguém capaz de integrar samples e sintetizadores diversos nas suas faixas, ainda assim as sonoridades sombrias com que tem vindo a trabalhar nos últimos anos estiveram ausentes. Em vez disso, as escolhas do artista recaíram sobretudo em tendências bem mais percussivas, cruzando ainda momentos de deep house com instantes quase industriais. Nada se aproximou do calor de Families ou do ecleticismo tão regional que ouvimos em Afrika, ainda assim foram vários os momentos que nos ajudam a compreender a afinidade do artista com noções bem ritmadas, com as quais transforma as suas próprias faixas quando as apresenta ao vivo.

A ideia que facilmente se interioriza a partir de momentos musicais como este acaba por ser simples, ainda que crucial para entender o que motiva – e que delimita também – o espectro criativo de um arista. Preferências de estimação, clássicos pessoais ou faixas que marcaram pela sua influência direta no trabalho de John Talabot em nome próprio fizeram-se escutar de forma tensa. Nada aqui foi uma viagem de ego ou sequer obsessão autobiográfica, antes um mapeamento de possibilidades e – sim – uma ponte bem construída entre a sua arte e o contexto cinético que a rodeia.

Passaram quatros anos desde Fin e neste intervalo de tempo ainda vigente foram várias as atuações do produtor no nosso país. A espera continua, mas agora com expectativas diferentes: a lógica recatada outrora patente nas suas faixas tornou-se arbitrária até certo ponto, o que em ultima análise poderá dar azo a uma liberdade maior, um manancial de possibilidades mais amplo.

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