Pop dominical
Texto: DANIEL BARRADAS
No universo da música pop podemos dar graças por ocasionalmente aparecerem compositores que, sem perderem o fio melódico sacaroso, conseguem encaixar o que bem lhes apetece no aparente limitador espartilho da canção pop. Paddy McAloon dos Prefab Sprout é um deles, por exemplo. Sufjan Stevens outro com obra mais recente. Ao quarto álbum dos Hymns from Nineveh, talvez seja altura de inscrever o nome de Jonas Petersen, o homem por trás da banda dinamarquesa, nessa ilustre filiação.
As provas estão dadas: no seu ano de estreia lançou dois álbuns, o homónimo e bíblico Hymns from Nineveh e um dos mais extraordinários álbuns de Natal da memória recente, Endurance in Christmas Time. Nessa altura levantava-se a questão: como pode uma banda pop contemporânea tão inspirada pelo cristianismo ser verdadeiramente relevante? É claro que há bandas de extrema popularidade que nunca se desviaram do cristianismo. Basta referir os Depeche Mode. E é preciso contar quantas vezes Madonna recorreu à imagética cristã? Mas esses artistas sempre abordaram a temática pelo lado escuro do pecado, da proibição e transgressão. O que distingue os Hymns from Nineveh de outros é estarem do celebratório lado da luz, o que é, convenhamos, muito pouco “cool”.
Não quer isto dizer que sejam uns beatos insuportáveis, antes pelo contrário. Há na sua temática uma aproximação muito mais filosófica à religião na medida em que procuram conciliar a morte, a solidão e a tristeza com a maravilha da criação e da existência. O seu terceiro álbum, o mui metafísico e esotérico Visions, era precisamente expressão dessa vertente.
Agora que nos chega Sunday Music temos uma reflexão muito mais pessoal. A canção de abertura, Eurasia, expõe o tema logo ao início: “Eu estou acordado/ entristece-me que estejas a dormir/ não me consigo aproximar de ti.”
Ao longo de todo o álbum vamos tendo episódios de uma relação em que um questiona a sua solidão por não se conseguir aproximar mais do outro. Mas também uma expressão de saudade por pessoas que se amou mas morreram (literal ou figurativamente) equilibrada por fé na ressurreição e no deslumbramento pelo presente.
Neste caso a ressurreição é por vezes metafórica. Leia-se isso na pequena história de Sunday Music em que o narrador se levanta mais cedo do que a sua amada num domingo, coloca o seu disco preferido a tocar e se interroga porque discutiram na noite passada, concluindo que afinal quando ela acordar será um recomeço.
Segue-se a esta uma das mais belas e contagiantes canções do álbum, Wonderful Winter Morning, em que um passeio na neve se torna uma elegia por entes perdidos e um hino ao momento e amor do presente.
O disco irá terminar (curiosamente) em Lisboa, na memória de um momento pessoal passado na Sé de Lisboa durante a lua de mel de Petersen. Mas, mais que um final, é afinal a pescadinha de rabo na boca que reata com o primeiro tema do disco, já que ambas as canções partilham os mesmos acordes executados pelas cordas. Ou seja, é um disco que se fecha sobre si mesmo, como uma reflexão que não precise ser dirigida ou concluída. É literalmente um disco para ouvir em “repeat”.
Musicalmente, as composições de Petersen estão ao seu melhor nível. Embora sejam notoriamente impulsionadas pelas letras, respiram com toda a naturalidade e não se acanham quando encontram refrões capazes de conquistar qualquer ouvido. Encontramos uma descendência da pop dos Prefab Sprout em Eurasia, uma inspiração de Sufjan Stevens na delicada e confessional Perfume, mas estamos sem dúvidas dentro do seu universo muito pessoal. As orquestrações são as mais variadas, não hesitando em recorrer a electrónicas ou a instrumentos clássicos quando é preciso (ouça-se o delicado equilíbrio de Paper Kite entre os harpejos do piano, o coro, o saxofone e a bateria).
Sunday Music é um disco notavelmente inspirado, com o paradoxo de que, sendo mais pessoal que os anteriores, é também mais universal. Repleto de belas melodias e pormenores sonoros, funciona tanto ao nível superficial de uma primeira audição ou música ambiente como pede por repetidas e atentas audições.
Está na altura de trazer Jonas Petersen e os Hymns from Nineveh de volta a Lisboa, e nem precisa ser na Sé Catedral para converter o público.
Hymns from Nineveh
“Sunday Music”
Playground Music
★★★★

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