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A tuba e o farol

Texto: DANIEL BARRADAS

Sempre quis saber como soa uma tuba tocada dentro da torre de um farol? Finalmente pode ouvir isso num disco e é muito melhor do que poderia imaginar.

Kristoffer Lo é um norueguês que começou a tocar tuba ainda em criança. Tão pequeno era que tinha de se sentar com listas telefónicas na cadeira para conseguir chegar ao bocal para soprar. Ainda hoje, a sua figura não é nada o que associamos a quem toca tão pesado instrumento. Ele é alto, extremamente magro, e quando pega na sua tuba quase tememos que tombe com o peso. No entanto, quem já o viu ao vivo, em qualquer das dezenas de projectos onde já participou, do pop ao jazz, do rock ao noise industrial, pode atestar que ele a torna uma extensão de si mesmo, porque a toca dançando e porque o que faz é tão grande e potente. Para ele, a tuba, como qualquer instrumento pode ser para um músico, é simplesmente um amplificador da sua alma musical.

Em Dezembro de 2013, equipado com a sua tuba, um trombone de marcha, uma guitarra electrica e diversa parafernália electrónica, Lo partiu para uma aventura musical: tocar dentro da torre metálica do farol de Ryngvingen, no extremo sul da Noruega e registar o resultado no que se viria a tornar o álbum The black meat, lançado agora em Fevereiro de 2016.

Simultaneamente foi também rodado um documentário sobre Lo e estas gravações que pode ser visto aqui com legendas em inglês:

The black meat é composto por três peças, num total de 45 minutos. A primeira é a mais “melódica” delas e a mais acessível, aproximando-se por vezes a universos por onde outros nórdicos como os Sigur Rós ou Anna von Hausswolff já trilharam.

A segunda, Anodyne for Annihilation talvez pareça a menos interessante, mas é nesta que a tuba verdadeiramente brilha e as vibrações e ressonâncias que Lo explora são extraordinárias. Que o sopro humano esteja na base deste som é absolutamente impressionante.

A terceira peça, a que dá o título ao álbum, é o verdadeiro desafio sonoro e tour-de-force. Há que escutá-la do início e deixar que os primeiros dez minutos de caóticos sons metálicos e distorção nos preparem para o que depois vai emergindo.

O filósofo Kant definia o sublime como uma categoria para lá da beleza. Associava essa noção a fenómenos natureza como as quedas de água, as tempestades, os terremotos. Momentos em que o humano se vê reduzido ao seu pequeno tamanho e confrontado com a sua mortalidade.

The black meat está muito mais perto do sublime do que da beleza. O som tem uma qualidade que quase se poderia chamar geológica. É o som das montanhas a crescer, do mar a moer falésias, dos planetas a rodar no espaço.

O som deste disco é o maior desafio que pode dar ao seu sistema sonoro lá de casa e é quase garantido que os seus vizinhos e animais de estimação não irão gostar dele. Mesmo com auscultadores, as vibrações passam-nos para o peito e afectam o corpo todo. Imagino que os dois anos que passaram entre o registo e a edição desta música tem como causa a tarefa hercúlea que deve ter sido a masterização.

A audição destas peças é literalmente um exercício físico que nos deixa próximo da exaustão, mas ao mesmo tempo há nelas algo de tão catártico que não conseguimos deixar de nos sentir exultantes quando terminam. Música desta monumentalidade geológica não é para todos os dias, mas procurem encontrar o tempo e a disponibilidade para ela e encontrarão algo verdadeiramente grande.

Kristoffer Lo
The Black meat
Propeller Recordings 2016
★★★★

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