Quando a voz encontra o cenário certo
Texto: NUNO GALOPIM
Nascida em Hong Kong em 1984, filha de pai inglês e mãe chinesa, Emma começou a ouvir música agarrando os poucos discos pop/rock vindos de além das fronteiras da China que conseguia encontrar na Tower Records que havia mais perto de casa. Ouvia Smashing Pumpkins, Lemonheads e outras bandas indie rock do seu tempo até que, aos 12 anos, deu por si em Londres. Quando, anos mais tarde, começou a fazer as suas canções, apresentando-se como Emma The Great, a sua voz revelou uma contadora de histórias pessoais relatadas em franco tom confessional, sob uma moldura musical folk.
First Love, o seu primeiro álbum, lançado em 2009, apresentava uma herdeira de uma Suzanne Vega e outras trovadoras nesses mesmos terrenos, revelando depois o segundo disco, Virtue, de 2011, sinais de discreta evolução numa rota de continuidade, num corpo de canções de alma semelhante, mas mais evidente gosto em trabalhar o cenário em volta da voz e das palavras que cantava, com surpreendente afloramento de uma pulsão pop , usando até mesmo electrónicas, em Sylvia, o melhor instante do disco. Este interesse novo pelo adorno manifestou-se mais evidente ainda pouco depois em This is Christmas, disco de Natal que lançou ainda no mesmo ano. E depois fez-se silêncio. Da voz e das canções já que foi pelas palavras que se manteve ligada à música, trabalhando como jornalista nesta área em publicações como o Guardian ou no canal Noisey.
Agora, o regresso aos discos, que surge depois de um single e um EP que ensaiaram novos terrenos entre 2014 e 2015, faz-se com Second Love, que é de longe o seu melhor disco até aqui e que, mas que qualquer dos anteriores, justifica que a encaremos como uma figura que de facto se destacou e afirmou claras marcas de uma personalidade que aqui se mostra evidente não apenas por cantar as coisas da sua vida, mas porque o faz num contexto musicalmente mais refletido e, também ele, capaz de traduzir ecos de um “eu” que aqui se escuta a viva voz.
Se por um lado o título traça alusões eventuais para com o primeiro no plano das vivências pessoais – amores, separações e afins – por outro traduz também o encontrar de novos encantamentos, levando ainda mais longe os desafios de mais detalhada conceção das molduras em volta das canções, saltando contudo uns valentes patamares além dos ensaios, ainda discretos, que mostrara em Virtue. As electrónicas estão mais presentes, embora não assaltem nunca um protagonismo que nunca deixa afinal de se afirmar pelo canto, mostrando os arranjos soluções (ecléticas) que ajudam assim a definir um corpo que ganha outro sentido de complexidade e diversidade, sem contudo perder o rumo. Esse, está firme na escrita e no canto.
Ao quarto álbum (sim, que o de Natal também é gente), Emmy The Great afirma-se finalmente como mais do que apenas uma promissora voz da família folk nascida depois do milénio. É uma escritora de canções, com ambições cénicas mais evidentes para a mesma vontade de falar de si, do que sente e do mundo que lhe é mais próximo. Da dedicatória aos “manos” Phoenix em Phoenixes às brumas intrigantes de Swimming Pool (a canção que Lana del Rey gostaria de ter feito, não tivesse acabado refém dos seus repetidos maneirismos de melancolia de loja dos 300), há aqui muitos caminhos e histórias à nossa espera. E a cicerone, acreditem, sabe cativar. Agora, sim.
Emmy The Great
“Second Love”
Bella Union
★★★★


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