Natalie Portman e as memórias de Amos Oz
Texto: LOURENÇO ROCHA
Traduzir e adaptar para o ecrã Uma História de Amor e Trevas não é tarefa fácil. Natalie Portman, que além de protagonizar o elenco se estreia aqui numa longa metragem, singra na projecção dos tons quiméricos que compõem as memórias de Amos Oz. Mas, como argumentista, Portman depara-se com uma recordação algo errática, espraiando-se pelas mais de 600 páginas do livro de 2002; conceda-se que o autor, que se biografa e se prosopografa (procurando a génese e descrição do seu ambiente), confere univocidade ao livro, mas reconheça-se o eco de dezenas de narrativas e reflexões que devem encontrar sequência num filme. A Portman argumentista escolhe algumas linhas do novelo (as relações intercomunitárias no Mandato Britânico, o nascimento do Estado de Israel, o pai e, especialmente, a nostalgia da mãe) que incontestavelmente dão alma ao filme.
Natalie Portman reconstrói com sucesso uma era, montando pormenores, que no papel se encontram dispersos, num sólido cenário. Concorre no sentido da fiança o aproveitamento de excertos do narrador do livro, que aqui medeiam alguns segmentos. É a teia do argumento que acaba no entanto por ser demasiado rarefeita para captar a destreza da sua viva memória. Escapa-se-lhe o vigor das personagens. Por exemplo, o estado de espírito daqueles que enveredam na Ália (o retorno da diáspora para Eretz Israel, afinal a sociedade de Amos), como o avô Alexander, aglutinando um sionismo convicto com uma cultura europeísta. Quando se deparara com o anti-semitismo crescente em Vilna, o avô candidatara-se a imigrante em França, Suíça, Estados Unidos, na Escandinávia, Reino Unido, até Alemanha (18 meses antes de os nazis palmarem o poder), e depois da recusa de todos os lugares, envereda na Ália. Ou a fatídica fé cosmopolita do seu tio David, filho de Alexander, “um homem do seu calibre não iria pegar na mulher e no filho bebé, desertar a linha da frente e fugir para se esconder, da violência de uma pandilha barulhenta, numa qualquer província levantina atingida pela seca, onde uns poucos judeus desesperados tentavam a sua sorte no estabelecer de uma nação segregacionista e armada, o que, irónica e aparentemente, tinham aprendido com os seus piores inimigos”. Uma convicção que traz para David, a sua esposa Malka e o seu filho Daniel, que ainda não completara 3 anos, a morte. Ao mesmo tempo que escapa este contexto, escapa também o embaraçado confronto destas centenas de milhares de pessoas à realidade no Mandato Britânico. Estes antecedentes poderiam ajudar o espectador a melhor compreender Fania, a mãe, em quem Portman decide focar-se largamente, e a quem “poucos e cruéis foram os dias dos anos da sua vida”. De outra forma, Fania parece assolada por uma patologia exótica, ansiando um companheiro viril.
Assim, apesar do sólido cenário, foge ao filme a concretude dos protagonistas, que também não recebem interpretações excepcionais. Resta a esperança de que a sala perceba o convite para a leitura do livro.

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