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A assassina clemente

Texto: DIOGO SENO

Mais do que um filme de artes marciais, “A Assassina”, de Hou Hsiao-Hsien, é um conto de dever e paixões sussurrado e visualmente deslumbrante.

A Assassina estreou em Cannes o ano passado, onde arrecadou a palma de melhor realizador, para a perplexidade de uma imprensa que esperava espadachins voadores e emoções grandiosas. Se o último filme de Hou Hsiao-Hsien tem ligação com o wuxia (o popular e milenar género de artes marciais asiático), essa relação é contorcida, já que o realizador se afasta dos clichés que este género adoptou no cinema para criar uma obra exigente e rigorosa.

Ambientado no século VIII, durante o período de declínio da Dinastia Tang, A Assassina desenha uma subtil e intrincada teia narrativa de paixões e traições num estilo inconfundível. Um filme que se habita com perplexidade e onde se descortina o mundo lentamente, ao mesmo tempo cerebral e sensualmente.

Yinniang, a protagonista, foi entregue a uma freira em pequena, para ser treinada como assassina profissional. Como se descobre no prólogo (a preto e branco, demarcando-o da cor sumptuosa que inundará o filme mais à frente, e iniciando com austeridade a viagem da protagonista), não tem no entanto a frieza necessária para esse papel, pelo que a sua mentora a envia numa missão a Weibo, para assassinar o seu general, Tian Jian, o primo do qual esteve outrora noiva, num teste à sua determinação.

Os contornos da história, e da relação entre Yinniang e Tian Jian, são lentamente revelados em cenas de diálogo cuidadosamente encenadas e realizadas. A câmara move-se de forma imperceptível nos interiores sumptuosos. Muitas vezes, as personagens são vistas no escuro, ao longe, por trás de cortinas. As cenas de luta, sequíssimas, breves e concisas, decorrem quase todas no exterior. É admirável a forma como Hou Hsiao-Hsien equilibra interiores e exteriores, como explora as minúcias da vida na corte tão bem como os ritmos da natureza (e que plano assombroso aquele onde a freira se encontra no pico da montanha enquanto o nevoeiro sobe para a inundar…). Muitos planos parecem convidar à contemplação que uma pintura exigiria. A banda sonora resume-se ao tocar de um tambor, muito espaçado, que pontua algumas cenas, nomeadamente as de maior tensão. No entanto, a impressão que fica é que esta é uma história quase muda, de silêncios pontuados por breves cenas em que o cortar do ar pelas espadas sobressalta. Contudo, outros sons abundam no filme: são os da natureza, o do marulhar das árvores ou dos zumbidos dos insectos. Por vezes, parece que Hou Hsiao-Hsien nos está a pedir que estiquemos ao máximo a nossa capacidade de percepção, para que consigamos absorver tudo.

É um mundo meticulosamente recriado, trazido à vida com enorme panache visual, e com minuciosidade sonora, que nos pede para olhar, e ouvir, com atenção, não só para absorver toda a sua beleza, como para intuirmos as emoções que estão em jogo.

A esguia protagonista está dividida entre a sua ocupação actual e a sociedade à qual outrora pertenceu: é uma espécie de fantasma (a mulher de negro), que não consegue fazer parte, plenamente, de qualquer dos dois lugares. Os seus pais mencionam que nunca deveriam ter deixado a freira, a mestre que a treinou com inclemência na vida de assassina profissional, levá-la. Pois Yinniang maneja com destreza a espada, é ágil e imperceptível, mas as suas emoções impedem-na de ser implacável. O filme acaba por mostrar este drama à distância, por vezes alienando, mas ganhando assim uma qualidade mítica, intemporal, que nos faz dever-lhe, com justeza, toda a nossa admiração.

“A Assassina”
Realização: Hou Hsiao-Hsien
Com: Shu Qi, Chang Chen, Zhou Yun, Satoshi Tsumabuki
Distribuidora: Midas Filmes

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