Os filmes da Judaica 2016
Textos: LOURENÇO ROCHA
“Todos os rostos têm um nome”, de Magnus Gertten
Um projecto que Marcus Gertten começou em 2008 – dar um nome às caras que aparecem em imagens de arquivo gravadas em 1945 quando a Suécia acolhe milhares de refugiados libertados dos campos de concentração alemães – revela-se, na data em que o filme sai, prognóstico. O motivo então, como o realizador confessou após a projecção, fora a curiosidade em relação a um acontecimento orgulhosamente marcado na memória colectiva da sua cidade natal de Malmö. O pai revelando-lhe que estivera lá a recebê-los em menino, espoleta o interesse no projecto, e é mesmo ele, um aficionado pela história, que vai, ao fim de dois meses de pesquisa, descobrir o primeiro nome.
Nesta motivação lemos claro uma contracorrente ao rumo da história. As vítimas, que os nazis desumanizaram e desidentificaram, continuam após a sua libertação inseridas numa vaga. Contra ela, a curiosidade de Gertten, como o próprio frisou na sessão solidária – uma parceria da Judaica com a Plataforma de Apoio aos Refugiados, PAR –, cria conexão e identificação. Mas na sessão Rui Marques, representando a PAR, dizia ver também neste documentário uma “ideia chave para interpretar o momento presente”, em que a desconfiança face aos refugiados e migrantes se acentua, “o que está em jogo são pessoas, nomes.” A historiadora Irene Pimentel concorria, falando da necessidade de se exibir o documentário na televisão portuguesa.
Apesar do realizador dizer não ter pretendido “escrever um manifesto”, a ponte que o filme faz entre 1945 e o presente não se esgota nos depoimentos dos que a 28 de Abril desse ano ficaram gravados na película recuperada e se conseguiram hoje encontrar. Justapõem-se imagens do verão de 2014, uma embarcação de migrantes é resgatada pela marinha italiana. São imagens que não podem não referenciar a reacção da Europa hodierna. Por outro lado, reavê-se o momento em que a Suécia mudou radicalmente a sua atitude face à imigração. O desafio de nomear as faces, uma tarefa que continua hoje através de um sítio web, a curiosidade que, diz Gertten, se encadeia com a empatia e solidariedade, concretiza-se num filme tecnicamente impecável. Uma obra, que me pareceu, de um humanismo caracteristicamente sueco.
A Suécia tem actualmente uma política de acolhimento que não lhe permite rejeitar requerentes de asilo menores. Para 2015, as projecções da Agência de Migração Sueca previam acolher 8,000 menores. Em Outubro, Mikael Ribbenvik, o seu director-geral adjunto, revelava já ter acolhido 20,000 menores, estimando acolher outros tantos até ao final do ano. Na altura vincaram-se na minha memória as suas palavras “se olharmos para a lei internacional, não devemos discutir quantos conseguimos receber, mas quantos podemos rejeitar e mandar de volta. Quantos é que podemos mandar de volta para a Síria hoje? A resposta é muito simples. É zero.”
Esteve ainda presente na sessão o alto-comissário para os refugiados da República portuguesa, Pedro Calado, que revelou que se discute a hipótese de subir para 10,000 a fasquia dos refugiados a acolher num período de dois anos; relembre-se que esta se acordara nos 4,574 nomes. Calado recordou ainda que na história recente Portugal deu provas da sua resiliência, ao absorver o meio milhão de retornados; o coro de desconfiança ouvia-se também então: “são africanos”, “nunca vieram à Europa”.
“Pássaros de fogo”, de Amir Wolf
Estreia na realização do israelita Amir Wolf, Pássaros de Fogo aponta um novo foco sobre aquela que é, e isto é posto no filme com um esgar lúgubre, a comunidade mais exclusiva do mundo: a dos sobreviventes da shoah. Começando como novela policial, um cadáver aparece rio marcado com a tatuagem mais comum (e tabu) do mundo (a segunda serão os Fire Birds que dão o nome ao filme), a trama ganha uma dimensão romanesca em analepse. Então, assistimos aos esforços do octagenário Amikam (Oded Teomi) por se imiscuir na dita comunidade, forjando memórias e conhecimentos, e aproximando-se em particular de três mulheres, a vedeta Zisy Glik (Miriam Zohar, sobrevivente na vida real), a sua servente e protectora Halperin (Dvora Keidar) e a cirurgiã reformada Olga (Gila Almagor). Encontrando-se sozinho depois do suicídio da mulher e da falência da empresa, Amikam procura uma base de apoio nos bailes organizados para os que, afinal, foram companheiros dos pais e irmão no inferno materializado.
Os sobreviventes vivem, nesta ficção, uma existência boémia. Na sua faixa etária, os funerais tornaram-se como que obrigações sociais ou convívios, em a morte, amiga de longa data, não estraga a festa. Amir, que assina o argumento com o pai Itzhak e com Orly Robenshtein Katcap, faz fremir um véu bem pesado com a brisa da mais ligeira comédia que se ri com os próprios protagonistas, um feito não menosprezável. O elenco, tudo nomes familiares do público israelita, mantém o tom com prestações francas e gráceis.
“Filmes Proibidos”, de Felix Moeller
Dos 1200 filmes produzidos na Alemanha durante o regime nazi cerca de 40 permanecem hoje banidos, as cópias em celulóide (inflamável) periclitantemente guardadas num bunker, de onde só saem para projecções acompanhadas de uma sessão de contextualização histórica e crítica e seguidas de debate público. Destes, à volta de metade, disse-me o realizador, estão disponíveis alhures, seja na internet, em cópias de má qualidade como frisou, seja em cópias artesanais que circulam nas mãos da subcultura de extrema-direita.
O filme apresenta excertos dos ditos filmes, assim como as opiniões de académicos, alemães e israelitas, e das audiências a quem foi dada a oportunidade de os rever, nesses países e em França, sobre um eventual relaxar das regras de projecção e até de edição dos filmes. O interesse para o historiador, amador ou especialista, é explicitado; acrescendo a responsabilidade de os veicular em edições que os enquadrem numa ideologia e regime que a humanidade só pode rejeitar, ao invés de patrocinar casas de distribuição neonazis, fora da Alemanha, que hoje os publicam, ou de os relegar para contextos propagandísticos desse submundo anacrónico.
Por outro lado o poder persuasivo do meio, o inculcar de estereótipos no subconsciente, e também a ofensa à memória das vítimas, algumas ainda vivas, apresentam-se como entraves. Moeller, presente na sessão, falava ainda do perigo diplomático que seria lançar hoje Homecoming, que pinta, num fenómeno de projecção psicológica, os polacos ocupados como nazis, num momento em que as relações entre o governo alemão e o novo governo da direita (xenófoba) Polaca se azedam.
O valor de Filmes Proibidos advém principalmente dos excertos dos filmes. O realizador confessava que esta (a sala Manoel de Oliveira) era a maior em que ele tinha sido projectado, e dizia ser bom vê-los assim, num contexto mais próximo do original. A estrutura do documentário é atabalhoada, revelando-se enfadonha a tarefa de perscrutar a lógica, ou perseguir a sua incoerência, dos intertítulos que o pautam. Por outro lado, o contexto histórico feito é redutor, resumindo-se a uma comparação dos números de audiência do cinema em geral, e de alguns destes filmes em particular, com números actuais; perde-se assim o argumento de que muito do poder persuasivo desta propaganda assenta em preconceitos preexistentes na Alemanha, e nalguma Europa, dos anos 30 (uma reacção aos Filmes Proibidos dizia finalmente perceber como é que os nazis tinham conseguido fazer o que fizeram, depois de ver esta propaganda). Fica-se então com a impressão errada de que esta propaganda é uma invenção no vazio, e com uma ideia exacerbada do seu poder, como se ela interviesse numa tela branca; esquecemo-nos do que diz o historiador Raul Hilberg no Shoah de Lanzmann, os nazis “inventaram muito pouco, e não inventaram o retrato do Judeu, que foi decalcado minuciosamente de escritos que remontam ao século XVI.”
O mesmo que se diz sobre o anti-semitismo poderia ainda ser dito sobre antipatia da Alemanha, derrotada e humilhada no pós-Grande Guerra, em relação às nações aliadas, sentimentos que são também explorados nalgumas destas obras ainda hoje banidas.



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