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A saborosa pop clássica de Meilyr Jones

Texto: NUNO GALOPIM

Depois de uma carreira pouco notada nos Race Horses, a estreia a solo de Meilyr Jones revela em “2013” um álbum pop orquestral de travo classicista.

Não será exatamente aquela coisa do “antes só do que mal acompanhado”… Mas a verdade é que, após anos a fio nos Race Horses, com os quais assinou uma sucessão de discos de travo indie pop decentes, mas sem chama maior, Meilyr Jones mostra, agora a solo, uma visão pop orquestral que lhe garante já a 2013 (assim chamou ao disco) um lugar entre os melhores momentos discográficos do primeiro trimestre de 2016. Reza a mitologia em volta deste disco que tudo começou no ano a que o título agora alude, num tempo em que tanto um relacionamento pessoal como a sua velha banda se desmoronavam e passavam a habitar entre as memórias do seu passado. Partiu então para Roma onde, entre estímulos que cruzam tempos vários, encontrou o caminho que o levou a uma mão cheia de canções que nos apresenta num dos álbuns mais cativantes que o ano já nos seu a ouvir e que fazem desta uma das boas surpresas entre uma multidão de muitas outras novidades, a maioria já diluída entre o ruído do que o tempo tratará de esquecer.

Há uma estranha sensação de familiaridade entre o que de novo aqui escutamos. Não se trata, como o recente Varmints, de Anna Meredith, de um disco que experimente novas soluções e relações possíveis entre formas e instrumentos. Pelo contrário, há todo um quadro de ressonâncias classicistas a passar por aqui, seja das heranças da música orquestral de travo romântico, seja dos ecos da pop clássica dos sessentas, revisitada através dos seus vários (e muitos) descendentes. E depois há familiaridades, quer tímbricas (a voz de Meilyr Jones lembra muitas vezes a de Paul Heaton, dos Housemartins e Beautiful South), quer na forma de encarar a composição e arranjos (aqui as sensações de afinidade passando por um Patrick Wolf, um Owen Pallett ou Morrissey…

Em 2013 coabitam as guitarras de escola pop clássica com um gosto pela exploração das possibilidades do som dos instrumentos de uma orquestra, sem contudo procurar um sentido de dimensão épica como o fez Neil Hannon nos melhores dias dos Divine Comedy, em fim de século. E depois há todo um quadro de temas que exploram quer uma agenda pessoal de acontecimentos e sensações, quer olhares pelo mundo ao seu redor, da cidade que foi palco de todas as transformações – Roma – à presente crise dos refugiados.

Para quem quer ser surpreendido com um álbum pop sóbrio, cativante, onde o novo convive (e bem, diga-se) com todo um conjunto de referências clássicas, 2013, a estreia a solo de Meilyr Jones, é a resposta que procurava.

Meilyr Jones
“2013”
LP, CD e DD Moshi Moshi / Edel
★★★★★

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