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Quanto tempo dura uma mentira?

Texto: NUNO GALOPIM

Rodado pouco antes da morte de Robin Williams, “Boulevard” mostra-o num dos seus papéis mais discretos, mas também mais sentidos, como protagonista da história de um “coming out” tardio.

Apesar do enorme (e merecido) reconhecimento como humorista, se vos pedirem que recordem, num ápice, um papel de Robin Williams, o mais provável é que o primeiro exemplo que a memória irá buscar é o do professor d’O Clube dos Poetas Mortos (Peter Weir, 1989). Boulevard, que surgiu já na reta final da vida do ator (que morreu entre a rodagem e a estreia do filme) é outro dos seus grandes papéis dramáticos. Tão simples e discreto como a figura do homem que vive um quotidiano banal, igual ao de tantos outros… E é nos antípodas do professor exuberante que o ator mostrou como, quase invisível, consegue dar vida a uma personagem que lutou quase toda a vida para também o ser, escondendo por detrás de um casamento tranquilo (com marido e mulher a dormir em quartos separados), um emprego monótono numa agência bancária e um dia a dia rotineiro, um segredo que, mais dia menos dia, acabaria inevitavelmente por corroer toda a mentira que fora a sua vida.

Este é o ponto de partida de Boulevard, um filme realizado por Dito Montiel, que em tempos militava entre bandas punk hardcore e desde há alguns anos é autor de uma obra para cinema apenas tecnicamente competente e, até aqui, relativamente incaracterística e cujo título anterior foi Empire State. Boulevard tem contudo os seus contrafortes na sóbria e credível interpretação de Robin Williams e no argumento de Douglas Soesbe, que, de resto, projeta aqui ecos autobiográficos de um coming out tardio.

De facto estamos habituados a ver narrativas de saída do armário com protagonistas relativamente jovens. Boulevard sobe a fasquia e apresenta Nolan (Robin Williams), um homem de 60 anos que vive um casamento tranquilo, trabalha num cubículo entre papéis e um computador e tem por melhor amigo um escritor, com quem frequentemente toma o pequeno almoço. Foi neste mundo discreto, escondido por detrás de uma rotina normativa, que disfarçou, toda a vida, a sua identidade. E só quando vê o pai – que trata, não porque dele gosta, mas porque “é assim que se faz – acamado após um ataque cardíaco, toma consciência de que a vida é demasiado curta para a desperdiçar como, até ali, estava a fazer. Num trajeto noturno dá, inesperadamente, boleia a um jovem prostituto, com o qual procura não o sexo mas para já uma ligação a algo que nunca teve… E das novas mentiras que a ligação provoca sobre as rotinas, o invisível acaba por tornar-se visível.

Boluevard é assim uma narrativa não normativa de coming out. Olha alguém no fim da meia idade, observa os equilíbrios frágeis da vida conjugal, dos amigos e colegas de trabalho. Constata o fundo homofóbico da sociedade que o fez mentir logo à partida. Fala de afetos. Mas também de negação, implosão e solidão. Diluindo-se na personagem, Robin Williams dá aqui corpo a histórias aparentemente pouco fulgurantes ou chamativas, mas que não serão assim tão raras por este mundo fora.

Porém, como o filme não morou nas prateleiras dos “casos” da saison, nem foi carregado em ombros nos festivais que chamam os media, tem acabado por conhecer um destino tão discreto quanto o de Nolan. Vamos contudo ainda a tempo de o ajudar a fazer o seu coming out. Mesmo que tardio, como o de Nolan.

“Boulevard”
Realização: Dito Montiel
Com: Robin Williams, Bob Odenkirk, Kathy Baker, Giles Matthey, Roberto Aguire
Distribuição: Films4you

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