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A música como reflexo biográfico

Texto: ANDRÉ LOPES

Ao sétimo disco de originais, Kanye West consolida o passado num álbum em que a inventividade paranóica ficou para trás.

Lançado no dia dos namorados, o percurso de The Life of Pablo não se inicia – nem termina – nessa data. De facto, o mês de março viu surgir uma nova encarnação do disco no Tidal (plataforma de streaming no qual Kanye West é acionista) com faixas reestruturadas e misturas distintas, que se têm dado a ouvir de acordo com um propósito caprichoso por parte do rapper que do formato “álbum” pretende mais do que um produto estanque ou finito. Com ou sem a fixação na revalidação perpétua, fará sentido refletir primeiramente sobre The Life of Pablo com base nos elementos factuais que o cercam: lançado após My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010) e Yeezus (2013), dois dos mais importantes discos que escutámos no espaço do hip hop mainstream durante a última década, a premissa para o futuro foi auto-alimentada durante tempo demais. Kanye West antecipou um qualquer “best record of all time”, ou um álbum de gospel – este último acontece (e termina) na primeira faixa, actualizada no último domingo de páscoa.

Sabemos à partida que pensar sobre a música de Kanye West não é possível sem considerar a persona pública que propositadamente e com orgulho, contamina a sua produção criativa de forma intrusiva. Essa persona, bem como o ego do arista, servem em The Life of Pablo como motores para uma viagem que à exceção de Freestyle 4 e I Love Kanye, conta com uma coerência notável. Contrasta diretamente com Yeezus, já que a expressão musical não existe por aqui obcecada com uma vanguarda muitíssimo discutível no que toca a técnicas de produção e tratamento de texturas eletrónicas. Feedback recorda uma cadência e dicção tão relaxadas – e por isso naturais – que não escutávamos desde os três primeiros discos de Kanye West. Waves traz o primeiro grande refrão do álbum via Chris Brown, por entre ritmos típicos de trap domesticado que aqui se aliam eficazmente com uma forma interessante de considerar o sintetizador como motor de canções, sem exigir uma melodia que guie toda a canção. Abel Tesfaye salva a faixa que se segue: FML torna-se um dos momentos mais emotivos de The Life of Pablo, algo que se deverá tanto à fantástica melodia do refrão, como ao instrumental que não deixa que a categoria de faixa mid-tempo lhe pese ou arraste.

Tal como acontece com Madonna ou Björk, é com recurso a uma relação de conforto/confronto entre Kanye e diversos colaboradores que nasce a matriz que formaliza cada disco. Esta é uma modalidade que prevalece em The Life of Pablo, com um produto final assumidamente pessoal, mas que seria impossibilitado enquanto esforço individualista. No More Parties in LA seria uma banalidade sem Kendrick, e Fade tornar-se-ia possivelmente questionável sem os sete produtores que aqui conseguiram um regresso fulguroso de Kanye West à pista de dança.

Nunca “o melhor álbum de todos os tempos”, The Life of Pablo serve de nota a incorporar na consciência coletiva daquelas e daqueles que encontram na música popular um foco de interesse: para que se atinja uma qualquer significância cultural a inovação não é aspeto imprescindível, sendo antes antes pela assimilação de elementos do passado, em simultâneo com uma consolidação de valências e preferências próprias, que Kanye West encontrou ao sétimo disco um momento de reflexão – mas mais do que isso: uma posição confortável na qual se pode dará ao luxo de contemplar o seu trajeto e a forma como o mesmo ajudou a reestruturar o hip hop que ouvimos atualmente.

Kanye West
The Life of Pablo
GOOD / Def Jam
★★★★

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