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Dez canções para recordar Kurt Cobain

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

Quando passam 22 anos sobre o dia em o mundo soube da notícia da morte de Kurt Cobain, iniciamos um percurso através de dez canções que guardam a sua memória,

Passaram, no passado dia 8 de abril, 22 anos sobre o dia em que o corpo de Kurt Cobain foi encontrado, já sem vida, por um eletricista que fora a sua casa, em Seattle, para instalar um sistema de segurança. Só os estudos feitos pelos médicos legistas determinaram depois que a morte teria ocorrido três dias antes. Ou seja, a 5 de abril. O dia 8 de abril de 1994 foi contudo o dia da notícia. Que correu mundo. Hoje, 22 anos depois, iniciamos um percurso por algumas das canções que Kurt Cobain cantou. Umas com os Nirvana, outras nem por isso. Umas de sua autoria, outras sendo versões de autores ou de canções que admirava. O critério de seleção, esse, é pessoal. Mas transmissível.

“About a Girl” (1989)
Estávamos ainda longe de imaginar que, dois anos depois, o álbum Nevermind daria outro sentido e projeção aos Nirvana mas logo ali, entre o alinhamento do álbum de estreia Bleach (que então ajudava, antes da euforia mediática global, a definir os contrafortes da identidade grunge), esta canção alertava para algo diferente. O tempo ajudou-nos a descobrir a riqueza das referências de Kurt Cobain, mas com About A Girl surgia desde logo a afirmação de uma pulsão pop de alma vintage que com o tempo ganharia outras expressões de visibilidade. A canção é assim uma das primeiras expressões de uma admiração maior de Kurt Cobain pelos Beatles e, de resto, surgiu, como reza a mitologia, depois de uma tarde inteira a ouvir o álbum (americano) Meet The Beatles. Com o tempo a canção que tinha a sua aura de alienígena entre o alinhamento de Bleach tornou-se num clássico. Abriu o alinhamento do Unplugged para a MTV. E em 1994 chegaria mesmo a single nessa versão despida de eletricidade.

“Polly” (1991)
Esta foi, juntamente com About a Girl, uma das primeiras manifestações de uma escrita mais “clássica”, refletindo heranças de vivências pop mas que, pelo contraste evidente para com outros momentos de Bleach, acabou por ficar de fora do alinhamento do álbum de estreia. A história da canção está documentada com maquetes que remontam a 1987 e sabe-se que, antes do título pelo qual foi inserida no alinhamento de Nevermind, conheceu outros nomes de trabalho, de “Cracker” a “Hitchhiker”. Inspirada por uma história real de rapto e violação, a canção é a única de Nevermind a incluir o trabalho de Chad Channing, o baterista que seria entretanto substituído por Dave Grohl.

“Come as You Are” (1991)
Se Smells Like Teen Spirit aterrou no panorama musical de 1991 com aquela rara força de um objeto que muda o curso da história, coube ao segundo single extraído do álbum Nevermind o papel de sublinhar que esta não era uma história para se esgotar numa canção. E assim foi. Escolhida em detrimento de In Bloom, que era o outro tema em ponderação para ser então editado como single, a canção cumpriu o papel, alargando inclusivamente a outros públicos a chamada de atenção para o álbum e a banda. Espelho de algumas contradições – talvez intencionais, como alguns ensaios sobre a letra depois explicitaram – Come as You Are sublinha por um lado o sentido de liberdade e de aversão a regras normativas que a obra e palavras de Kurt Cobain várias vezes focou. O peso dessa frase tomou mesmo um papel tão marcante na caracterização da figura de Cobain e do sentido da sua obra que hoje, ao entrarmos em Aberdeen, no Estado de Washington, onde o músico nasceu, a placa toponímica que indica que ali chegámos acrescenta ao nome da cidade o aviso “come as you are”. Já a frase “and I don’t have a gun”, que canta por diversas vezes, ganharia outros sentidos e interpretações possíveis após a sua morte. Essa mesma frase gerou um erro durante uma etapa da gravação da canção na qual Kurt sobrava a sua voz, cantando “memoria”. Depois do solo de guitarra, o engano – que revela esse “and I don’t have a gun” fora de sítio – acabaria por ficar na versão final e dar à canção um dos seus mais belos detalhes.

“Something in the Way” (1991)
Em tempos corria o mito que, a dada altura, Kurt Cobain teria dormido numa ponte sobre o rio Wishkah, em Aberdeen (Washington), a mesma junto à qual há agora um monumento em sua homenagem. A mesma a que alude o primeiro verso de Something In The Way, a canção que encerra o alinhamento de Nevermind e que ainda hoje é aquela que coloco em primeiro lugar quando me pedem para escolher um tema dos Nirvana. Canção pessoal, suave, com um arranjo onde as cordas juntam um calor ao desencantamento de que se fala, é um dos mais incríveis exemplos de grande escrita e composição de Cobain. O mito, que a canção alimentou como banda sonora, perdurou até que a (muito recomendável) biografia assinada por Charles Cross – Heavier Than Heaven, que até hoje me parece ser ainda o mais recomendável dos livros sobre Kurt Cobain – explicou que, se Kurt tivesse dormido por baixo da ponte, teria sido levado pela corrente na maré alta. Na verdade, por esta altura, dormia ou em casas de amigos ou nas salas de espera de hospitais, deixando os seus pertences guardados numa caixa de cartão, onde alguém a pudesse guardar. A canção, contudo, sobreviveu ao fim do mito.

“Heart Shaped Box” (1993)
Foi a canção escolhida como single de apresentação de In Utero, o álbum de originais em estúdio que se seguiu ao colossal impacte global de Nevermind (vale a pena lembrar que Incesticide, de 1992, era na verdade uma compilação que juntava singles, versões e algumas raridades). A canção começou a nascer em 1992 e, durante algum tempo, Kurt Cobain deixou-a esquecida até que voltou a pegar nas ideias que tinha, aos poucos surgindo o tema que foi mesmo assim de desenvolvimento difícil até que, na mistura de Scott Litt, pareceu ser de facto uma das potenciamente mais cativantes para edição como single. O tema foi acompanhado por um dos telediscos visualmente mais arrojados da obra visual dos Nirvana e que consta numa antologia de vídeos musicais de Anton Corbijn, que o realizou.

“Dumb” (1993)
Um dos mais evidentes exemplos das heranças “beatlescas” na música dos Nirvana emergiu num dos temas do álbum In Utero. Na verdade Dumb era uma canção escrita há já algum tempo (precede mesmo a gravação de Nevermind) e que chegou mesmo a ter as suas primeiras apresentações num formato acústico, o que lhe garantiu naturalmente presença também no alinhamento que levariam ao Unplugged da MTV. A versão que incluíram no álbum junta características da versão acústica (nomeadamente o violoncelo) à instrumentação elétrica. Esta, por sua vez, seria dominante nas várias expressões apresentadas depois em palco. A presença da palavra “happy” confere a Dumb uma das mais evidentes frestas de luminosidade em toda a obra dos Nirvana. E é uma das suas melhores canções.

“The Man Who Sold The World” (1993)
Em Novembro de 1993, nos Sony Studios em Nova Iorque, os Nirvana apresentavam-se sob os holofotes e em frente às câmaras da MTV para protagonizar aquele que talvez seja o mais mítico de todos os seus “Unplugged”. Além de um desfile entre as suas canções apresentaram várias versões, uma delas de uma canção então algo esquecida de David Bowie, de quem Kurt Cobain era admirador. Foram em 1970, o tema-título do seu terceiro álbum de originais e teve nesta assombrosa leitura acústica na voz de Kurt Cobain o passaporte para (merecidamente) se transformar num clássico maior de David Bowie. Esta gravação seria editada em 1994 no álbum MTV Unplugged in New York.

“Where Did You Sleep Last Night” (1993)
Entre as várias versões que os Nirvana levaram ao programa Unplugged da MTV estava uma canção com um historial antigo. Trata-se de uma canção folk, com uma origem que pode recuar à década de 1870 e que muitas vezes é apresentada com o título In The Pines. A canção é frequentemente associada à figura de Lead Belly, figura histórica da folk e dos blues, que a gravou em mais do que uma ocasião nos anos 40 do século XX. Grande admirador de Lead Belly, Kurt Cobain comentou, antes de interpretar a canção no estúdio nova-iorquino onde o programa estava a ser gravado, que um representante dos herdeiros dessa lenda da música americana lhe tentara vender a guitarra do músico por 500 mil dólares… Pelos vistos não a comprou. A versão, na voz de Cobain, é simplesmente impressionante. E fechou o alinhamento, tanto do programa como da versão em disco de MTV Unplugged in New York.

“Do Re Mi” (1994)
Havia uma ideia para um sucessor de In Utero já em construção. E há referências, confirmadas em tempos por Michael Stipe (em declarações citadas em Here We Are Now, do biógrafo Charles R. Cross), que o disco novo dos Nirvana seria tranquilo, acústico e usaria arranjos com cordas… Esta era uma das canções em que Kurt Cobain estava a trabalhar nos primeiros meses de 1994, possivelnente com o novo disco em vista. É, de resto, aquela que se crê ter sido a sua última canção e nela encontramos novamente marcas de um melodismo de escola pop que Kurt Cobain aprendeu a gostar ao escutar os discos dos Beatles. Há gravações conhecidas deste tema, gravadas em casa de Cobain, em Seattle. Uma dessas gravações surgiu já na caixa antológica With The Lights Out e, depois, em Montage of Heck.

“And I Love Her” (2015)
Entre as muitas novidades reveladas em 2015 com o documentário Cobain: Montage of Heck, de Bett Morgen, estava uma gravação caseira de uma versão de um clássico dos Beatles. A sua existência em si não é surpreendente, uma vez que era sobejamente conhecida a admiração maior que Kurt Cobain tinha pela música dos fab four. Mas a fragilidade da gravação, com a voz acompanhada apenas pela guitarra acústica, é arrepiante. Esta versão foi editada em single, por ocasião do lançamento do álbum com a banda sonora do filme.

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