O direito do mais forte à barbaridade
Texto: NUNO CARVALHO
Continuando a explorar o filão que já deu origem a algumas joias da literatura e do cinema, de Joseph Conrad a Werner Herzog e John Boorman, o colombiano Ciro Guerra dá em O Abraço da Serpente um contributo interessante para a “estatuária” cinemática que aposta no tema “primitivo” das viagens existenciais com sabor etnográfico e com apelo estetizante. Perante o aprumo estético das imagens a preto e branco, a tentação automática é logo etiquetá-lo como “formalista” – e, num certo sentido, este é um filme formalista. Contudo, é-o de uma maneira inesperada, porque nos fala essencialmente da personagem de um índio pertencente a uma tribo à beira da extinção cuja “tragédia” pessoal se cinge precisamente ao facto de se sentir um recetáculo vazio, um corpo desalmado e eviscerado – o que equivale a dizer “despersonalizado”.
Portanto, seria sempre injusto dizer deste filme que se trata de uma abordagem “estetizante”, perfunctória ou estereotipada, na medida em que a sua personagem nuclear convoca o vazio, a rigidez de quem carrega a energia da morte e do desvanecimento, o aspeto de “estátua viva” de um corpo dissociado da alma ou do qual a alma se evadiu para não ser destruída pelos processos de despersonalização a que o colonizador e opressor ocidental, com a sua arrogância moral e convicção da “supremacia branca”, sempre sujeitou as minorias étnicas.
Vagamente inspirado nas aventuras de dois exploradores que existiram na vida real, Theodor Koch-Grünberg e Richard Evans Schultes, O Abraço da Serpente divide-se em dois tempos distintos, entre 1909 e 1940, e acompanha primeiramente a jornada de Theodor (Jan Bijvoet) na selva amazónica em busca de uma planta rara para curar uma doença tropical e o encontro deste com Karamakate (Nilbio Torres), um índio xamã e último sobrevivente da sua tribo que o ajudará nessa demanda. Trinta anos depois, seguimos Evans, um botânico norte-americano que, movido pelos diários de Theodor e pelos seus interesses científicos em etnobotânica, procura também a planta rara com a ajuda de um Karamakate (agora interpretado por Antonio Bolívar) já velho e em busca de uma religação a si mesmo.
De resto, a personagem deste xamã e curador ferido é o centro de onde irradia o tom melancólico e triste do filme (desde logo expresso no preto e branco da fotografia, que traduz uma disposição anímica encinzada). Ele é um homem cuja desoladora solidão o transformou naquilo que ele designa como um chullachaqui, alguém que é como uma concha vazia desligada dos outros e apenas com vagas memórias que o resgatam da aniquilação total. Karamakate é um homem despersonalizado pela violência intolerante, desrespeitadora e dilapidadora dos colonizadores, e nesse sentido o filme de Ciro Guerra é um duro lamento sobre o prepotente direito do mais forte à barbaridade. O Abraço da Serpente foi o primeiro filme colombiano a ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
O Abraço da Serpente
De Ciro Guerra
Com Nilbio Torres, Jan Bijvoet, Antonio Bolívar
Alambique

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