O mergulho que tudo faz depois emergir
Texto: NUNO GALOPIM
Na origem está La Piscine, filme de 1969 de Jacques Deray com Alain Delon, Romy Schneider e Jane Birkin no elenco… Depois há a luz (e os subentendidos que quisermos juntar) do quadro A Bigger Splash, de David Hockney, que na verdade foi o que deu o título ao filme. Depois há a evidente assinatura de autor de um realizador que não só sabe lidar com as suas personagens (e trama que, mesmo lentamente, vão colocando em cena), como as faz relacionar magistralmente com o espaço onde evoluem. E depois há um elenco onde uma Tilda Swinton discreta, mas sempre arrebatadora e um Ralph Fiennes em modo radicalmente oposto ao que estamos habituados nos seus papéis, garantem ao filme os corpos que lhe dão vida e as histórias que impedem que uma paisagem aparentemente paradisíaca seja apenas um postal para acalmar o olhar.
Seis anos depois, com trabalhos em filmes publicitários e um documentário sobre Bertolucci pelo meio, o italiano Luca Guadagnino faz suceder ao assombroso Eu Sou o Amor (ao qual a música de John Adams dava imponente e emotiva dimensão operática) com uma história que, na paz de uma villa numa pequena ilha em pleno Mediterrâneo, cem quilómetros a sudoeste da Sicília, faz eclodir todo um conjunto de segredos e desejos que o tempo havia arrumado em cada um dos protagonistas. Estes, na sua essência, são diretamente inspirados nas figuras do filme de 1969. Tilda Swinton veste a pele de uma estrela de rock (com algo de Bowie em si, lembrando uma vez mais que, havendo um dia um biopic, ela será a perfeita candidata a ser ele). Sujeita a uma operação à garganta não pode falar. Pelo que o seu dia a dia ali, longe de tudo, com a piscina junto à casa, o mar ao fundo, na paisagem, e a companhia tranquila de um fotógrafo com quem vive há anos (Matthias Schoenaerts) é coisa tranquila, luminosa, suave… O oposto do palco. Até ao dia em que um ex-namorado, produtor musical, interpretado por Ralph Fiennes, que é daquelas figuras com bateria que não se esgota e que contagia com intensidade, gestos e conversa tudo o que está à sua volta, anuncia a chegada já o avião está a aterrar. Consigo traz a filha (Dakota Johnson). E, tal como no Swimming Pool de Ozon, a piscina será cenário para que o que estava emerso em todos eventualmente venha à tona…
Tal como em Eu Sou o Amor, Luca Guadagnino centra o olhar nas personagens e é com elas que deixa a narrativa evoluir. Aqui, contudo, mais lentamente, ou não fosse aquele o sol do Mediterrâneo… Mas depois junta olhares sobre o mundo ao seu redor. Voltando a mostrar um interesse na gastronomia e nos sabores… E procurando não só sugerir em breves traços as características das gentes da região (ora nas suas vidas ora na interação com os “famosos” que ali são quase anónimos), como junta marcas do presente ao fazer cruzar algumas sequências com ecos das histórias de migrantes que fazem o quotidiano daquelas latitudes (e os nossos noticiários).
Mesmo cabendo a Tilda Swinton e aos planos em volta da piscina alguns dos momentos mais memoráveis do filme, é a Ralph Fiennes que cabe a “cena” mais inesquecível de Mergulho Profundo quando, numa tarde, pega no gira-discos para pôr a tocar o álbum Voodoo Lounge dos Rolling Stones, que a sua personagem produziu. E, aí, com o entusiasmo transbordante com que vive todos os minutos de cada hora que passa, explica como levou o grupo a pensar uma forma alternativa de pensar a percussão numa das canções contando, passo a passo, como os vários elementos da estrutura da canção foram nascendo. Mergulhando no som, portanto.
“Um Mergulho Profundo”
Realização: Luca Guadagnino
Com:Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson
Já agora, como extra, aqui fica um plano do filme e, logo a seguir, o quadro de David Hockney que dá o título a esta nova longa metragem de Luca Guadagnino:

“A Bigger Splash” (1967), de David Hockney
PS. Apesar do título idêntico, este filme relaciona-se com a obra de David Hockney por esta pintura e não pelo filme, com o mesmo nome, de Jack Hazan, que tem o pintor como protagonista, recriando episódios reais da sua vida.


Deixe um comentário