Tudo o que não estávamos à espera…
Texto: NUNO GALOPIM
É difícil dizer não. Ou quando colocar um ponto final. E por isso os Beatles ou os Japan são raros casos de ponto final colocado num momento de grande forma, a nenhuma das bandas sendo possível apontar sinais de decadência ou de tiros fora do alvo (bom, os Japan andaram meio perdidos no início de carreira, mas uma vez encontrado o caminho, em Quiet Life, nunca mais se enganaram). O mesmo se aplica aos “supergrupos” que por vezes caem na tentação de fazer segundos e terceiros capítulos que, raramente, igualam a ideia pela qual se juntaram e que, habitualmente, se expressa em pleno no álbum que tudo apresenta… O segundo álbum dos Traveling Wilburuys não chegou ao calcanhar do primeiro. Os Electronic tropeçaram depois de uma estreia magnífica. O segundo dos Power Station foi disparate (embora inconsequente)…
Tudo isto para falar dos Last Shadow Puppets. São, na verdade, um “supergrupo”, juntando Alex Turner (dos Artic Monkreys), Miles Kane (que militava nos Rascals quando a ideia ganhou forma), James Ford (dos Simian Mobile Disco) e Zach Dawes (dos Mini Mansions). Em 2008 o belíssimo álbum The Golden Age of Understatement revelou uma soberba coleção de canções cruzadas por ecos de memórias da Inglaterra pop dos sessentas sob uma moldura épica digna de um score de James Bond… Cheguei a pensar que estariam aqui os autores da Bond song seguinte… Mas não foi assim que 007 escolheu…
O que poderia ter sido uma experiência pontual (como o foram os Arcadia com elementos dos Duran Duran) transforma-se agora num caso de continuidade que, contudo, não só nada acrescenta ao que o álbum de 2008 havia mostrado, como revela uma coleção desinspirada de canções que fazem um conjunto algo incaracterístico que, mesmo sob nova colaboração de Owen Pallett nos arranjos de cordas, em nada repete. Porque, lá está, faltam as canções. Há um ou outro bom momento. Como Bad Habits. Mas esse podia ser mais um bom single de uns Arctic Monkeys e não necessariamente o novo de um projeto que nasceu com uma alma orquestral, vintage e elegante e, aqui, não a reencontra exatamente esses ingredientes… Porque não mudaram então de nome, como tantas vezes acontece nos domínios da música de dança? Diminuía as expectativas. Aumentava o grau de liberdade… Mas quando o título diz, ainda por cima Everything You’ve Come To Expect, fazendo acreditar que vamos reencontrar um segundo episódio da mesma estirpe e, no fim, sai um disco assim, desinspirado, a frustração marca pontos que não estávamos à espera… É pena.
PS. A capa, ao menos, é boa! Bela foto de Tina Turner!
Last Shadow Puppetts
“Everything You’ve Come To Expect”
Domino Records
★★


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