Quentinho e sedoso
Texto: DANIEL BARRADAS
Há uma arte no alinhamento de um álbum que se rege por uma regra básica do jogo da bisca: não se usam os trunfos todos logo nas primeira jogadas.
O álbum da estreia a solo da veterana Amanda Bergman sofre por concentrar as suas três melhores canções logo no início. A partir daí, tudo o resto soa a refugo. Não por ser mau, mas simplesmente por não haver mais nada com o mesmo brilho e dimensão panorâmica.
A produção mantém-se imaculada ao longo de todo o disco, mas nem as melodias nem a elegância de arranjos estão ao mesmo nível da perfeita trilogia feita por Falcons, Golden e Questions. Fosse esse o caso e estaríamos perante um dos mais deliciosos discos deste ano.
A voz plácida de Bergman é perfeita para arranjos de seda à la Roxy Music (do tempo de Avalon) como os que ouvimos em Golden e, se a canção fosse mais interessante, até os desculparíamos quando em Flickering Lights resvalam para aquele som de The War on Drugs a requentar Dire Straits.
Ainda a piscar os olhos às suas influências dos 80, não conseguimos depois deixar de achar que Sirens poderia ser mais bem cantada por Stevie Nicks, só porque uma voz mais rouca e doída lhe poderia emprestar um necessário dramatismo.
Avaliando o álbum enquanto estreia em nome próprio, este é sem dúvida um belo momento na carreira de Bergman que, sem se desviar muito do que os Amason (a sua banda actual) fazem, encontra aqui um caminho muito próprio, mesmo se iluminado por todas as suas referências sonoras dos anos 80. Se peca, é por erguer demasiado a fasquia logo de início e depois não continuar a saltar ao mesmo nível.
Ficamos então de orelhas levantadas à espera do seu próximo disco, porque o calorzinho reconfortante da voz de Bergman será sempre bem-vindo.
Amanda Bergman
“Docks”
Ingrid
★★★

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