O fim do traço contínuo
Texto: ANDRÉ LOPES
True Romance (2013) trouxe-nos consistência, Sucker (2014) deu-nos singles: Charlie XCX estreou-se próxima de sonoridades que, pela aliança entre synth-pop e darkwave, concentraram atenções na sua figura, numa época em que a praga da música de dança eletrónica adquiria contornos pouco requintados – Avicii e Major Lazer reanimavam os vícios da música eletrónica maximal, aplicando-os a sugestões melódicas questionáveis.
Com uma lógica mais eletrificada, Charlie XCX conseguiria singles como Break the Rules ou Doing It, mas, tanto quando sabemos, uma trajectória de sucesso fácil não se coaduna com uma personalidade artística que não teme em chamar para junto de si nomes associados à PC Music. O muito pouco consensual coletivo londrino (que lançou nomes como A. G. Cook, easyFun ou Hannah Diamond) é em si próprio digno de atenção especial: assente numa descontraída amálgama de sonoridades que repesca traços da vulgaridade do eurodance, os ritmos do electrohouse e uma influência clara dos moldes da música pop japonesa e coreana.
Parece caótico e é-o em parte, especialmente se considerarmos esse o contexto a partir do qual Vroom Vroom foi pensado: produzido maioritariamente por SOPHIE (colaborador frequente da PC Music), este é um EP onde Charlie XCX recupera o propósito experimental das suas primeiras canções, aplicando-os ao panorama atual. São somente quatro faixas, mas todas elas imprescindíveis: no espaço pop contemporâneo que parece ter encontrado em FKA Twigs a musa da “vanguarda” (…), este último disco de Charlie XCX reconstrói possibilidades e torna operacional o próprio conceito de futurismo quanto aplicado à canção pop “comercial”.
Como rede de segurança – ou único elemento ligeiramente expectável – temos as melodias acessíveis de sempre, intoxicadas em Paradise pelo artifício que é a frequência absurda da “voz” de Hannah Diamond. Os restantes elementos sónicos fazem-se ouvir como perigosamente próximos de um qualquer estado de implosão (ou explosão, pouco importa), onde a segurança de quem escuta é a última das prioridades de Charlie XCX. A faixa título é de uma estrutura anémica que impressiona pela eficiência que consegue adquirir: mais cativante do que qualquer canção de SOPHIE, reconhecemos logo desde os primeiros instantes de Vroom Vroom que este é o colaborador certo para um EP assim. Se Charlie XCX procurava mais do que experimentar, aventurar-se numa pop extravagante e indiscreta; a receita para isso ouve-se nestas quatro faixas.
Trophy distorce uma citação de Mia Wallace em Pulp Fiction numa faixa sobre o frenesim que é a ambição de quem pouco tem a perder. Entre o clamor da exaltação feminista, o conjunto lexical que predomina por todo o EP ganha aqui contornos evidentes num disparar de versos sobre a mulher-dominante, que reclamam a semântica sobre carros de luxo e que não esquece referências aos Tangerine Dream. Quem está no comando, sabe o que reside no passado.
O final quase-fúnebre (mas nunca derrotista) com Secret (Shh) reflete sobre uma paisagem mais frágil, mas nem por isso mais segura. A estética do RnB pode trazer alguma familiaridade de pouca dura, já que a subversão ansiosa de SOPHIE não se faz tardar. “Please don’t tell nobody/I’m ready to climb the walls/I know that you want it/I’m ready to give it all/I feel like an animal on all fours/I see myself all over you for sure/You got me breaking all the rules” – amplificada pelo próprio potencial, Charlie XCX obtém com este EP um folgo renovado para avançar. Vroom Vroom é indiscreto, espalhafatoso e encomendado para disturbar toda a estrutura rígida que possa reger, quer o “bom gosto”, quer as estruturas nas quais uma “boa” canção pop se alicerça.
Charlie XCX
“Vroom Vroom”
Vroom Vroom Recordings / Atlantic
★★★★


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