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A alta-costura da canção francesa

Texto: DANIEL BARRADAS

“Les vestiges du Chaos”, o mais recente álbum do francês Christophe é uma lição de mestre na arte de bem vestir canções para a contemporaneidade.

É uma pena que eu sinta a necessidade de começar este artigo por vos explicar quem é Christophe, um senhor francês com mais de 50 anos de carreira artística. Afinal, por muito europeus que às vezes nos sintamos, a verdade é que vivemos numa esfera cultural que é maioritariamente anglófila. Mas, se de facto não sabem quem é, aqui têm motivo para uma tarde bem passada na internet e no Spotify.

Para além da francofonia, refira-se também que raramente nos chegam álbuns de septuagenários tão relevantes como este, embora este ano tenhamos já desfrutado do opus final de Bowie (aos 69 anos) e estejamos à espera de mais um disco de Linda Perhacs (aos 73), cuja edição podem/devem ir apoiar aqui.

Mas depois desta pequena digressão, vamos ao que interessa, que é chamar-vos a atenção para um disco excelente. Les Vestiges du Chaos é o 13º álbum de estúdio de Christophe, e é uma verdadeira lição de mestre.

A primeira coisa a aprender é que uma mão cheia de bons colaboradores faz maravilhas. Neste caso, entre muitos, temos Jean-Michel Jarre a escrever a letra de Les Vestiges du Chaos, Alan Vega a dar a voz a Tangerine, a jovem cantora Laurie Darmon a co-assinar Stella Botox, os arranjos de cordas de Clement Ducol (notáveis em Dangereuse) e a produção irrepreensível de Maxime Le Guil.

A segunda, é que na base de um bom álbum estão sempre boas canções. Elas são os ossos e a carne que depois se vestem com os arranjos e a interpretação. Neste caso, estamos nas mãos de quem verdadeiramente sabe do assunto, um grande costureiro. Veja-se o caso de Lou, uma homenagem a Lou Reed, que é talvez a canção mais extraordinária do disco. A melodia é uma coisa simples, perto do ingénuo, apoiada em acordes dedilhados ao piano, mas Christophe não precisa mais que esses ossos para insuflar um corpo com vida ao interpretar as palavras com um sentido dramático capaz de nos destroçar o coração e nos cilindrar emocionalmente. Depois há espaço para arranjos que sublinham o essencial, criam atmosferas e conjuram a voz do próprio Lou Reed numa entrevista em que precisamente fala de si como actor quando interpreta as suas canções. Coincidência? Pouco provável. E para terminar, um devaneio de guitarra eléctrica, daqueles de que só os grandes são capazes, condensando em meia dúzia de notas, sentimentos para os quais não há palavras.

Para além das boas canções, o álbum está cheio de boas ideias ao nível dos arranjos que não hesitam em recorrer a electrónicas contemporâneas ou a truques mais popularuchos como o auto-tune na voz que, mesmo em momentos mais azeiteiros como Mes nuits blanches ou Océan d’amour, é usado com verdadeiro savoir-faire. Há uma gestão notável dos timbres, dos silêncios, do espaço sonoro e Les vestiges du chaos, o tema que dá o título ao álbum, é sem dúvida um dos melhores exemplos disso.

O disco abre, com Christophe a cantar : “Eu proponho-vos abrir coisas, comigo, por novos caminhos”. É um convite que urge aceitar. Pela mão de quem tem cinco décadas de música na pele ou, como ele diz, “tem tatuados na pele os vestígios do caos”, tomem a estrada da descoberta de um dos discos de audição mais recompensadora deste início de ano. Pela minha parte, vai lá para o cimo da lista, sentar-se ao lado do de Bowie, no lugar dedicado aos mestres.

Christophe
“Les vestiges du Chaos”
Capitol Music France
★★★★★

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