O mito Gagarin ainda sob ecos da propaganda soviética
Texto: NUNO GALOPIM
Quatro anos depois do lançamento do Sputnik, o primeiro satélite que o homem colocou em órbita da Terra, o voo histórico de Yuri Gagarin, a 12 de abril de 1961, representou não só uma data marcante na história da ciência e da tecnologia como foi, para o poder soviético, mais uma vitória sobre os americanos (que, menos de um mês depois, igualariam o feito com o voo inaugural do projeto Mercury, com John Glenn a bordo). O programa espacial soviético, que somaria ainda triunfos maiores como o primeiro passeio espacial (por Aleksei Leonov, em 1965) ou, ainda antes, a viagem da primeira mulher ao espaço (com Valentina Tereshkova, em 1963). Gagarin foi, contudo, o herói maior do programa espacial soviético, figura desde logo mitificada pelo poder vigente e usada para efeitos de propaganda. Tinha a imagem e a história de vida ideais. Materializava, de resto, tudo o que um argumentista poderia esperar se aquela história com tanto de heroísmo como de expressão de uma alma coletivista tivesse de ser ficcionada. Mas não. Gagarin existiu. O mito tinha carne e osso.
55 anos volvidos sobre o voo espacial que colocou o seu nome na história – e convenhamos que só lhe chegou de perto o do norte-americano Neil Armstrong que, em 1969, foi o primeiro a chegar à Lua – Yuri Gagarin pode ser recordado, por exemplo, num biopic de produção russa que, entretanto, teve já edição em DVD no Reino Unido, com o título internacional Gagarin: First in Space.
Se o título, apesar de traduzir um facto, não esconde ecos de um velho programa de propaganda, o filme é ainda mais evidente na forma como aborda Gagarin, reativando a sua dimensão mítica, mesmo tentando mostrar a evolução narrativa num ponto de vista distanciado do poder soviético.
O filme, de Pavel Parkhomenko, acompanha o voo da Vostok 1 que levou Gagarin a cumprir uma órbita em torno da Terra a 12 de abril de 1961, observando detalhadamente os preparativos, as pequenas mudanças e acertos de última hora, lembrando quão frágil e arriscada era afinal toda aquela aventura. Em paralelo, uma sucessão de flashbacks vão recordando episódios da vida do protagonista, da vida em família à passagem por uma carreira na aviação militar e a posterior ligação ao programa espacial.
Contudo, em Gagarin: First in Space, o cosmonauta que encontramos é um ícone tão perfeito e mitificado como o que o poder comunista então levou a cartazes e photo ops.
O filme, que tem a seu favor um cuidado na construção (de facto) de cenários que recriam credivelmente quer a rampa de lançamento quer o centro de comandos, segue contudo uma rota pré-definida e polida. Faltam aqui as rugosidades que lhe teriam dado alma além do espírito docudrama que o habita. Que só não é docudrama de facto porque o DNA de propaganda, afinal, ainda molda a forma como a sua figura se expõe, 55 anos depois. Quanto às afinidades com o registo visual de Gravity, de Alfonso Cuarón, que alguma crítica internacional referiu, parece aqui caso menor face à carga da alma política que, afinal, continua a pairar sobre a representação deste herói dos dias da URSS.
“Gagarin: First in Space”, de Pavel Parkhomenko, está disponível em DVD com edição legendada em inglês, pela Enternatiment One, que junta um “making of” nos extras. O filme está também editado em Blu-Ray.

Deixe um comentário