Enquanto dura a ilusão
Texto: DIOGO SENO
Uma enorme propriedade rural na Sicília, onde encontramos uma mulher, nas amplas divisões da sua casa, a ser rodeada de uma progressiva escuridão. Um prólogo mudo, sóbrio, mas onde já se nota alguma grandiloquência que vai marcar o resto desta estreia na longa-metragem de Piero Messina.
A mulher é Anna (Juliette Binoche), uma mãe que acaba de perder o seu filho, Pietro, ficando assim apenas na companhia do caseiro na sua enorme propriedade. Sem de nada saber, a namorada do falecido, Jeanne (Lou de Lâage), viaja da França onde conhecera Pietro para a Sícilia, onde encontra um funeral, mas não sabe de quem. Anna, incapaz de lhe contar a verdade, começa a elaborar uma complexa ilusão. O visionamento de L’Attesa altera entre a admiração que a complexidade emocional do trabalho das actrizes, capazes de sustentar a ilusão que define o filme, suscita e a incredulidade que a progressão narrativa vai despertando.
A mãe, incapaz de lidar com a morte do filho, incapaz de proferir as palavras que marcam essa separação, configura a perda como uma espera, acreditando na mentira que conta a Jeanne. Enquanto esperam por alguém que nunca vai chegar, estas aproximam-se, preenchendo a ausência através da memória. A ilusão sobre a qual mãe e namorada laboram, apesar de oposta (uma sabe a verdade, outra não), é, em certa medida, emocionalmente próxima, porque ambas lidam com fantasmas, o da pessoa que perderam (ou que está ausente), e os da história da sua relação. Daí talvez que o percurso delas seja pintado como similar (ambas francesas, jovens e inseguras, apaixonaram-se por homens italianos) e as cores vestidas pelas actrizes em várias cenas sejam idênticas.
A mãe encontrava-se longe do filho há algum tempo, até ser surpreendida pela sua visita, e a namorada tinha deixado recentemente de o ser, e a visita à Sicília, a convite deste, vinha com a promessa de uma reconciliação após uma difícil separação. Tudo isto é contado langorosamente, entrevisto. Visualmente também, o filme opta por uma forma diferente de mostrar a dor da perda: os interiores amplos da casa ganham nova vida com a presença da rapariga e as cenas exteriores, maioritariamente banhadas da luz intensa do sol, no campo e junto ao lago, contrastam com a emoção terrível que o filme tenta representar. No entanto, o confronto emocionante entre Anna e Jeanne, interpretadas por duas enormes actrizes, não encontra suporte suficiente na realização. Se algumas cenas chegam à emoção pretendida, outras acabam por suscitar incredulidade, devido à encenação e às opções narrativas.
Messina altera entre um registo sóbrio, de planos de pormenor, close-ups e planos fixos, que permitem às personagens e aos diálogos ganharem vida, e outro grandiloquente, de planos gerais, em que pretende impressionar com a opulência da paisagem ou do cenário, traindo o outro registo. Incapaz de distinguir entre o supérfluo e o necessário a esta narrativa, o realizador cria imagens (e sequências) que nada acrescentam. Outras repetem-se para sublinhar a sua simbologia óbvia (nomeadamente as subaquáticas). Opções que acabam por prejudicar a sobriedade pretendida e a, por vezes devastadora, emoção que esta história, e estas actrizes, vão proporcionando.

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