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Contar a história da pirataria musical ao jeito de um ‘thriller’

Texto: NUNO GALOPIM

Numa das mais empolgantes leituras sobre música e a indústria discográfica, “How Music Got Free” conta como houve pessoas e decisões por detrás do cenário que fez da pirataria musical um fenómeno global.

Os números, mostrados na contracapa da edição inglesa de How Music Got Free, de Stephen Witt, são assombrosos… 100 mil milhões de ficheiros partilhados. 21 mil milhões de dólares perdidos (em euros será qualquer coisa como 18,15 mil milhões, ou seja, também fora do nosso alcance de compreender a dimensão da soma), 350 milhões de iPods vendidos, 50 milhões de utilizadores ativos, 300 mil canções “ripadas”, 25 mil álbuns “leakados” (sim, a palavra não existe em português mas toda a gente sabe do que se fala), 1500 CD contrabandeados, 150 conspiradores acusados, 14 anos “sísmicos” (como o livro diz) e, apenas, uma pessoa responsável…

Esta é a moldura em que nasce um dos livros de leitura mais obrigatória para quem gosta de música ou trabalha à sua volta já que, numa narrativa que trata as personagens pelos seus nomes reais e arruma os factos quase com a alma de um thriller, aqui se conta “o que acontece quando uma geração inteira comete o mesmo crime”… Ou seja, o de piratear música. Ou, como diz quem é adepto da coisa, fazer a sua “partilha”.

Antes de mais digo-vos, porque não é segredo, que não sou, nunca fui nem serei adepto desta “partilha” que na verdade nada tem de equivalente àquela bela ideia altruísta de distribuir pelos outros o que é nosso. E digo que não é equivalente porque, logo à partida, a música não é nossa. Nem mesmo se compramos o disco. Porque o que é nosso é o disco e não a música que nele vem gravada. A música é de quem a faz. E de quem trabalha para que nos chegue aos ouvidos.

Possivelmente o adepto da partilha, por esta hora, está já a enviar este texto para as urtigas… Aguente só mais uns parágrafos…

Há uns anos, num debate sobre o tema, um argumento era-me lançado por uma voz na plateia que defendia que, ao piratear, estava a lutar contra os patrões barrigudos da indústria do disco. Sim, foram as palavras que usou… (e já agora, que me lembre os executivos que conheci cá eram quase todos a dar para o magro)… Como vi pelo trabalho ao longo dos anos neste universo profissional da música e suas periferias, e como o livro de Stephen Witt agora confirma, os patrões da indústria foram, curiosamente, dos que menos sofreram nos 14 anos “sísmicos” que assistiram à eclosão e disseminação deste fenómeno à escala global. Doug Morris, o executivo que é um dos três nomes em destaque neste livro, acabou mais milionário ainda do que quando esta tempestade começou, num período em que foram despedidos milhares de funcionários pelo mundo fora e muitos músicos viram as suas fontes de receita cair a pique, tendo de encontrar outras formas de as encontrar.

Stephen Witt, que conta que foi um dos muitos a consumir música por estas vias, defende neste seu livro que o que foi um fenómeno de expressão global, quer quando se amplificou entre estudantes universitários via Napster ou se tornou ainda mais vasto através das tecnologias bit-torrent, na verdade resultou por um lado de um conjunto de ações e decisões envolvendo três personagens (reais) e, depois, resultou de um verdadeiro esquema ilícito montado secretamente na web, com utilizadores de nomes escondidos, com ligações toldadas entre si, quase como uma rede de malfeitores de dimensão mais perigosa até.

A primeira das personagens que nos é apresentada é Karlheinz Brandenburg, ou seja, o inventor do mp3, ficheiro que permitiu condensar o espaço de armazenamento de som. Uma invenção que a princípio não acolheu o entusiasmo da indústria (em nenhuma das frentes onde o som era usado) e que chegou a confrontar os investigadores (alemães) que nela trabalharam com a hipótese de um leitor portátil nem ser interessante ou viável… O evoluir dos factos mostraria que os utilizadores ganharam mais gosto pelo formato do que a indústria e que esta levou tempo demais a reagir. De resto, como explica Witt, quando Brandenburg propôs o licenciamento do seu formato à indústria discográfica, através da RIAA (Recording Industry Association of America), ele “foi diplomaticamente informado que a indústria musical não acreditava na distribuição electrónica da música” (na pág. 90 do livro)… Ooops, resposta errada.

A segunda personagem que conhecemos é Doug Morris, um dos maiores executivos discográficos de sempre, com carreira destacada no grupo Warner e, depois, ligado às aquisições e fusões que transformaram a Universal no colosso gigantesco em que se transformou. Se notarmos que foi de uma fábrica deste grupo, localizada na Carolina do Norte, que provieram 1500 discos “contrabandeados” antes da data de lançamento, e que se transformaram nos maiores casos da história das leaks e da pirataria, as suas decisões fizeram com que no catálogo estivessem concentrados os nomes que adubaram o desejo dos que, na rede online, estudavam agendas de edição em busca dos lançamentos mais apetecíveis (Witt nota, sobretudo, casos na área do hip hop). Ou seja, do topo da pirâmide, nas decisões de Morris, estavam as razões pelas quais os discos mais desejados acabaram por nascer nas várias etiquetas do seu grupo e, consequentemente, ser fabricados naquelas instalações.

Em terceiro, mas last buy by no means least, está Dell Glover. Um empregado na etapa de fabrico dos CD que tinha de os embrulhar em celofane que começou por desviar discos ainda não editados e acabou por ser um operacional chave no processo que fez sair daquela fábrica um volume espantoso de discos de primeiro plano que, através da rede à qual estava ligado (e da qual não conhecia pessoalmente o líder), fez chegar ao mundo os ficheiros que, massivamente, se espalharam depois pelo globo.

Witt conta a história dos três, seguindo em paralelo os factos. Junta contexto, acontecimentos ao seu redor e consequências das suas ações (critica, por exemplo, os processos que a RIAA lançou contra utilizadores que descarregaram ficheiros, não os vendo necessariamente como boa sugestão pedagógica ou preventiva). E desenha a evolução dos acontecimentos com um fulgor narrativo que faz de um livro que é, à partida, um exercício jornalístico (já que parte de muitas conversas suas com Dell Glover), mas que se lê com aquele desejo de virar a página mais característico dos thrillers.

Que filme não está aqui à espera de ser feito! Mas não façam como com tantos outros filmes… Não esperem pela sua eventual chegada à sala escura… Leiam já o livro!

Stephen Witt
“How Music Got Free”
296 págs., Bodley Head

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