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Em busca de novas ilusões

Texto: NUNO GALOPIM

Cruzando o pensamento musical com reflexões que evocam o naufrágio do Titanic e a Primeira Grande Guerra, o novo disco de Brian Eno junta a voz cantada a novas explorações em terrenos “ambient”.

A obra discográfica de Brian Eno tem-se dividido essencialmente entre discos vocais (mais raros, mas todos de rara excelência), instrumentais (grande parte deles representando peças basilares da linguagem ambient) e as muitas parcerias, isto sem falar nas colaborações com terceiros, que vão dos U2 ou James aos portugueses The Gift (em disco ainda sem data de lançamento anunciada). The Ship, que surge dois anos após um díptico assinado em conjunto com Karl Hyde (dos Underworld), retoma por um lado os caminhos de exploração textural em quadro ambiente que teve em Lux (de 2012) o seu mais recente episódio. Mas fá-lo num alinhamento que não veta a presença da voz, algo que até aqui não tinha acontecido nos discos que Brian Eno criou na sequência das primeiras visões para uma outra relação da música com o tempo que começou a explorar entre Discreet Music (1975) e Music For Airports – Vol. 1 (1978). E sem procurar aqui fazer uma súmula do que a sua obra representou, na verdade assina um novo passo em frente somando caminhos que já percorrera, mas que não costumava juntar num corpo comum.

Há uma outra ressonância histórica a passar por The Ship. Com afinidades no tema evocado (embora sob abordagem musical distinta), este novo disco estabelece pontes com os ecos da memória do magnífico The Sinking of The Titanic, de Gavin Bryars, obra-chave da música de arte britânica no final do século XX que teve primeira gravação através de uma editora então gerida pelo próprio Brian Eno. A evocação do naufrágio do Titanic surge agora em Ths Ship como um possível caminho para uma reflexão sobre a relação do homem com a tecnologia e a transcendência.

O disco está dividido entre esta peça que lhe dá título, e o tríptico Fickle Sun, que foca a atenção sobre questões lançadas por factos e atitudes nos tempos da Primeira Grande Guerra, e que inclui um segmento spoken word na segunda parte (na voz de Peter Serafinowicz), a terceira correspondendo depois a uma versão, de alma pop, de I’m Set Free dos Velvet Underground. E, uma vez mais, ao mergulhar numa canção pop, Brian Eno lembra-nos que essa é coisa que não faz nunca abaixo do muito bom…

Em conjunto a música que atravessa todo o disco assinala caminhos de relação da voz com filigranas de acontecimentos lentos, discretos, ora definidos por notas que se alongam, ora são invadidas por ruídos, acontecimentos digitais, elementos de uma sonoplastia que fazem de uma peça feita de sons um acontecimento capaz de estimular não só a reflexão como a sugestão de imagens.

O final, aparentemente mais “ligeiro”, na verdade não rompe as assombrações que passam por todo o disco. Tal como a voz de Brian Eno (tão brilhantemente) canta, evocando as palavras de Lou Reed, partimos no final em busca de uma nova ilusão. Como se, no mundo em que vivemos, o real tenha atingido um patamar tão absurdo que só permita a vida inteligente se entregue à ilusão. Mesmo sabendo que tudo, no fim, pode afinal naufragar.

Brian Eno
“The Ship”
Warp Records
★★★★

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