Dez canções (recentes) da Eurovisão
Seleção e textos: NUNO GALOPIM
É verdade que longe vão os dias em que do Festival da Eurovisão saíam canções como Waterloo dos Abba, Puppet on a String de Sandy Shaw ou Poupée de Cire Poupée de Son, de Frane Gall (um yéyé francês composto por Serge Gainsbourg) que se faziam êxitos maiores no seu tempo. Porém, e tal como em 1980 os belgas Telex fizeram de Eurovision um hino pop eletrónico que, mesmo sem impacte global, representa um daqueles episódios da história do concurso que vale a pena recordar, aqui ficam dez canções dos últimos anos que mostram como, apesar da deslocação do centro de gravidade do festival para Leste (e do consequente arraste para aquele outro lado da Europa do televoto, que mesmo assim ainda vale metade da pontuação), da vulgarização do uso do inglês, do recurso frequente a modelos de construção pop que nada têm a ver com as culturas locais e de uma cada vez mais gritante presença de candidaturas que valorizam mais o impacte do show off do que a força das qualidades de composição e interpretação da canção, houve mesmo assim episódios que vale a pena recordar.
Laura Tesoro, “What’s The Pressure”
Bélgica, 2016
Um entre os vários exemplos de presenças eurovisivas com carreira que passou por concursos de talento no pequeno ecrã, a jovem belga Laura Tesoro passou pela versão local do The Voice e encetou entretanto uma carreira como atriz. A canção com a qual representou a Bélgica em 2016 venceu o concurso local destinado a escolher a participação do seu país, ficou em terceiro lugar na respetiva semi-final e acabou a final em 1ºº, com 181. A canção reativa uma relação antiga do Festival da Eurovisão com o universo do disco sound, juntando algum tempero funk e pop, na linha do que eram as canções dos Jamiroquai.
Guy Sebastien “Tonight Again”
Austrália, 2015
Não era a primeira vez que um país não europeu participava. Aliás, desde Marrocos, que concorreu uma vez (e que fica em África) a antigas repúblicas da URSS e até mesmo Israel, que se situam geograficamente em espaço asiático, as frontreiras da Eurovisão habituaram-se a ir para além das linhas que delimitam politicamente os territórios europeus. A Austrália mora porém do outro lado do mundo… Mas há 30 anos acompanha em direto as transmissões e tem uma base de fãs vasta… Em 2014 o número do intervalo veio de lá. E em 2015, como país convidado, participou pela primeira vez. Escolheu como representante Guy Sebastian, uma voz revelada no Australian Idol. A canção terminou a final em 5º lugar, com 196 pontos.
Loïc Nottet “Rhythm Inside”
Bélgica, 2015
O representante belga de 2015, escolhido pela estação estatal francófona (a RTBF) tinha ganho visibilidade através da versão local do concurso televisivo The Voice, no qual cantara temas de, entre outros, Lady Gaga, Rihanna e os U2. O tema que levou ao Festival da Eurovisão, revelando por um lado uma sintonia com formas pop do presente, aceitando um certo minimalismo em algumas sequências do arranjo, valeu-lhe um quarto lugar e um total de 217 pontos. O single teve impacte nas vendas em alguns territórios, sobretudo na Bélgica, Áustria, Alemanha, Holanda ou Suécia. Mas não abriu, para já, portas a uma discografia mais sólida para o cantor.
Aminata “Love Injected”
Letónia, 2015
Aminata Savadogo começou por chamar atenções quando, em 2014, apresentou uma canção na final local. Em 2015 conseguiu ir mais longe, vencendo localmente e acabando a representar a Letónia no Festival da Eurovisão com uma canção que escapa aos paradigmas da pop eletrónica mais em vigor entre muitas outras participações, propondo uma ideia, também eletrónica, embora mais desafiante, que lhe valeu mesmo comparações com FKA Twigs. A canção terminou a final em sexto lugar, com 186 pontos e foi incluída no álbum de estreia da cantora, editado ainda em 2015. Este ano Aminata lançou já um segundo álbum.
Anouk “Birds”
Holanda, 2013
Contra o modelo mais clássico da balada “eurovisiva”, a holandesa Anouk levou à edição de 2013 do Festival da Eurovisão uma canção cheia de heranças folk. Melodicamente complexa, com um arranjo orquestral classista, Birds surgiu numa altura em que a cantora apresentava uma discografia já com sete álbuns de estúdio. A canção surgiu numa meia-final, foi aprovada e acabou a final em 9º lugar, com 114 pontos. Birds surgiria depois no seu álbum Sad Singalong Songs, editado ainda em 2013.
ByeAlex, “Kedvesem”
Hungria, 2013
Jornalista, escritor e músico, Alex Márta apresenta-se artisticamente sob o nome ByeAlex e é uma figura com relevância no panorama indie húngaro. Com formação em filosofia, já publicado e uma discografia que junta um álbum a uma já longa série de singles, o músico levou Kedvesem, um tema de travo invulgar, à final de 2013, sugerindo uma visão possível do som indie húngaro, com um certo travo pop, mas claramente distanciado dos modelos em voga à escala global. A canção valeu um 10º lugar na final, com um total de 84 pontos.
Lena “Taken By a Stranger”
Alemanha, 2011
Lena Meyer-Landrut, que assina os seus discos como Lena, é um dos muitos casos na história do concurso a nascer artisticamente num programa destinado a escolher uma canção para concorrer ao Festival da Eurovisão. Foi assim em 2010, vencendo a final local e levando depois a concurso a canção Satellite, que deu à Alemanha uma vitória em Oslo. No ano seguinte regressou com este Taken By a Stranger, que acabou a noite em 10º lugar, com 107 pontos. O tema foi integrado no alinhamento do álbum Good News, o segundo da cantora, editado logo em 2011. De então para cá gravou já mais dois discos.
Sébastien Tellier “Divine”
França, 2008
Sébastien Tellier era um nome já com créditos firmados na cena pop alternativa francesa quando, em 2008, chegou ao palco para representar a França a guiar um pequeno carro de golfe. Tinha dado os primeiros passos na estrada ao lado dos Air e editado já dois álbuns no momento em que foi revelado que seria ele o representante francês do ano com Divine, tema maioritariamente cantado em francês (o que gerou a esperada celeuma). Canção pop eletrónica, Divine ficou entre o pelotão dos menos pontuados (19.º lugar e 47 pontos). Mas, integrada depois no álbum Sexuality, produzido por Guy-Manuel de Homem Christo, dos Daft Punk, acabou por ser uma das canções nascidas na Eurovisão nos últimos tempos com maior visibilidade depois da noite da final.
Les Fatals Picards, “L’Amour à la française”
França, 2007
Durante dois anos consecutivos a França apresentou na Eurovisão canções e artistas um tanto fora do espectro mais habitualmente visitado pelos participantes. Não era a primeira que assim fora e, em 1991, com a tunisina Amina, tinham terminado em 2º lugar com uma canção bem longe do que eram as tendências de então. Em 2007 coube aos Le Fatals Picards, uma banda formada em 1998 e dada a cruzamentos de linguagens (do punk e pop à chanson), o desafio de levar a concurso um tema que parodia os clichés mais habituais da noção de romantismo “à francesa”, imitando inclusivamente um sotaque de um americano em tempo de cantar em francês. Terminaram em 22º lugar, com 19 pontos. Mas com uma das performances mais invulgarmente interessantes daquele ano. A canção foi depois editada no álbum Pamplemousse Mécanique.
Zdob şi Zdub, “Boonika bate doba”
Moldávia, 2005
Com uma história que remonta a 1994, os Zdob şi Zdub são uma banda moldava que cruza ecos da folk romena com várias correntes da cultura popular ocidental mais recente, o seu historial revelando sobretudo assimilações do punk. Em 2005 levaram à final do Festival da Eurovisão uma canção que promovia precisamente esses diálogos entre a tradição e a contemporaneidade, vincando uma atitude bem humorada que costuma cruzar as canções do grupo. Tinham já seis álbuns editados quando, terminaram a noite eurovisiva em 6º lugar, com 148 pontos.

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