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Fechadas pela paisagem branca

Texto: NUNO GALOPIM

Inspirada em figuras reais, Isabel Coixet leva-nos ao grande Norte numa expedição em inícios do século XX. Uma pitada mais bem doseada de realismo teria ajudado a dar verdade e fulgor à narrativa.

Duas mulheres estão cercadas pelo manto branco e pelo recorte das montanhas, algures bem a Norte, no Árctico. Uma delas, Josephine (interpretada por Juliette Binoche) está casada com um explorador que partiu em busca do norte geográfico. A outra, de uma tribo inuit (interpretada por Rinko Kikuchi), encontrou-a no decurso da sua viagem, tendo a aproximação do inverno e o agravar das condições climatéricas deixado as duas ali retidas, com toda a paisagem ao ser redor. Esse encontro é o destino procurado por Ninguém Quer a Noite, filme da catalã Isabel Coixet que abriu Berlim em 2015 perante reações algo contraditórias.

O filme tem sobejos argumentos a seu favor mas também algumas marcas que por vezes não o ajudam. A longa espera até ao encontro entre as duas mulheres serve para apresentar bem sobretudo a primeira delas (a de Binoche). É uma figura resiliente, que nada parece travar, nem mesmo os avisos de quem conhece bem os perigos da região e que confessa (como se vê na sequência de abertura) que ato de caçar um urso lhe deu um prazer que não conhecia. Coisa que se podia confessar nos tempos de finais da primeira década do século XX em que a ação decorre e que hoje valeria um valente torcer de nariz perante valores éticos que, um século depois, caminharam noutro sentido.

Ao mesmo tempo, em paralelo, há olhares breves, quase antropológicos, sobre a vida numa comunidade inuit. Mas sem o tempo de observação nem o mergulho profundo no seu âmago como vimos, há alguns anos, no sublime Atanarjuat – O Corredor Mais Veloz, de Zacharias Kunuk.

É claro que o longo processo de apresentação da figura interpretada por Juliette Binoche doseia diálogos que estabelecem o contexto – nunca uma mulher ali rumara por amor, diz-se – além de traçar o perfil da protagonista. Mas logo ali, com faca e queijo na mão para explorar a relação da mulher com o espaço ao seu redor, Isabel Coixet opta pela sugestão de uma certa dimensão épica com glamour. E, no sentido inverso ao realismo cruel de Iñarritu no filme que caçou os Óscares este ano, Ninguém Quer A Noite encena refeições com algum inesperado conforto mais habitual em latitudes mais baixas e confronta um guarda roupa por vezes excessivamente exuberante para a paisagem em volta. Não que todo aquele branco não seja moldura para maravilhosos planos com vestidos longos e gorros como o que Omar Shariff, em Doutor Jivago, inscreveu na iconografia das sugestões de frio ao serviço da sétima arte. E o problema é esse mesmo. Ao passo que os restantes membros das expedições usam peles e todos os truques para tentar enganar a temperatura, os trapinhos da protagonista ou têm aquecedor por dentro, ou então não são lá coisa em que se acredite assim tão piamente.

É assim entre essa busca de imagens que permitam explorar o confronto daquelas cenografias com as figuras que habitam as cenas, e o avanço em paralelo de uma atenção mais focada nos diálogos e no choque que resulta da convivência entre as duas mulheres, que avança esta aventura no grande norte que teria a ganhar com uma busca mais credível de realismo, sem que tal chegasse em detrimento da contemplação das imagens.

“Ninguém Quer a Noite”
Realização: Isabel Coixet
Com: Juliette Binoche, Rinko Kikuchi, Gabriel Byrne
Distribuição: Lanterna de Pedra

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