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Noções juvenis de gravidade

Texto: FRANCISCO GONÇALVES SILVA

Foi em Berlim que David Whiting, ex-membro dos Heretics, descobriu a forma de narrar a sua história e o seu passado, convertendo-o em “Gravity”, o quarto álbum de um dos seus vários projectos: Demoscene Time Machine.

As vagas de revivalismo têm vindo, de ano para ano, a tornar-se cada vez mais recorrentes e com novas fontes de inspiração. No que toca à música electrónica, as novas correntes são inúmeras, mas ao caso sobre o qual escrevo importa o regresso aos 90, período esse em que o mundo se convertia à “next big thing”: as consolas e os videojogos.

Ataris, MegaDrives ou GameBoys, que outrora fizeram parte da nossa juventude, são agora elementos essenciais na criação de um género, o chiptune, que transformou a música electrónica para sempre e em cuja síntese está o uso de um mero chip.

Berlim, um dos maiores centros criativos musicais na Europa, foi onde o britânico David Whiting, ex-Heretics, projecto synthpop londrino activo entre 2010 até ao fim de 2014, encontrou um novo rumo Demoscene Time Machine.

Já com uma vasta discografia, contando com três EP e quatro álbuns, dele chega-nos agora Gravity, uma obra totalmente por si produzida, que combina o 8-bit e o chiptune com melodias que acompanham a evolução da electrónia que se vai fazendo no século XXI.

Invocando a nostalgia da juventude, de onde retirou inspiração para este álbum, Gravity conta também traços de teor político. Uma dessas referências é à campanha publicitária “Protect & Survive”, dos anos 70, no Reino Unido, durante a qual, em plena Guerra Fria, as famílias foram encorajadas a encontrar métodos de sobrevivência.

Nem toda a electrónica aqui produzida, no entanto, foi feita para dançar. Estando mais direccionado para ritmos com uma carga emocional, a efusividade das canções apenas se revela em Astronaut ou Satellite, que navega por campos que associamos ao produtor britânico SOPHIE, colaborador de Madonna ou de Charli XCX. E se de um lado temos vontade de celebrar, há também espaço para a reflexão e são canções como Horizon ou Transmission Lost, que nos dão essa possibilidade.

Sendo rico em pequenas homenagens e referências, Gravity é em si uma narrativa pessoal e humilde, em que, a cada canção que se escute, há algo de novo a descobrir, uma outra forma de interpretação; e é em si mesmo uma espécie de livro que se consegue ler (neste caso, ouvir) vezes sem conta.

Demoscene Time Machine
“Gravity”
Ragdoll Records
★★★★

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