“Dheepan”, uma história de refúgio
Texto: JOSÉ RAPOSO
O movimento de abertura é uma passagem por um estado de confusão que se aproxima de uma realidade de difícil representação, justamente pela forma como nos conduz à situação fundamental do filme – a inserção de uma família de refugiados num ambiente estranho e marcado pela criminalidade. A direcção de Audiard aborda com alguma ambiguidade os mecanismos de acesso aos protagonistas da história: um grupo de soldados ocupa-se da preparação do funeral de guerrilheiros caídos em combate, cobrindo os corpos dos mortos com ramos de palmeira, e é precisamente dessa massa anónima que surge Dheepan, ainda atordoado com a impressão da guerra, desolado e sem vontade, como se a sua própria vida tivesse também terminado. Mas a sua história ainda mal começou: aquele homem que nos prende a atenção é um guerrilheiro dos Tigres de Libertação do Eelam Tamile, um grupo de combatentes pertencentes a uma minoria étnica que se opõe às forças governamentais do Sri Lanka. Mais à frente, e aqui a geografia do espaço (e o próprio horizonte temporal) torna-se propositadamente incerta e nebulosa, encontramo-lo já num campo de refugiados com aquela que irá ser a sua nova família: Yalini e Illayaal, mulher e filha. A Yalini vemo-la pela primeira vez momentos antes, atrapalhada numa correria pelo campo e à procura de uma criança desamparada que possa reclamar como sua. Juntos entram em território Francês com passaportes pertencentes a pessoas já falecidas – Dheepan é o nome do homem já falecido cuja identidade o guerrilheiro irá adotar -, e sob pretexto de serem uma família vitima de perseguição e tortura governamental.
Dir-se-ia que cinema de Audiard impressiona pela sua aderência manifestamente convincente aos códigos de um cinema realista, com uma pulsão muito próxima de um retrato documental, em larga medida devedora de uma direção de atores centrada na violência do corpo. Mas aquilo que aqui mais salta à vista é justamente a ausência dessa vitalidade performativa, como se Audiard pretendesse adormecer a impressão de uma realidade definida e muito concreta que invariavelmente afeta os protagonistas dos seus filmes. Não será por acaso que o sono e o sonho serão figuras recorrentes em Dheepan. Essa “anulação” de um certo pendor documental coincide com uma interrogação que Audiard tem vindo a (re)formular com alguma consistência: o que pode a linguagem perante esta contemporaneidade? Dheepan, Yalini e Illayaal vivem nos arredores de Paris mas não dominam o francês, e isso é um obstáculo à articulação de uma identidade própria. A massa anónima de onde emergem nos momentos iniciais do filme lança sobre eles uma sombra incerta – não está somente em causa a sua capacidade de relacionamento com o mundo, mas sobretudo a dificuldade em descrever a sua experiência no mundo.
Quando Illayaal se inscreve numa escola parisiense uma das palavras que não sabe pronunciar em francês é precisamente a palavra “governo”, isto é, a capacidade de inscrição na História.
Este é, justamente, o filme de Audiard em que essa dimensão da relação com a realidade se manifesta de forma mais confusa e problemática. A sua habilíssima mobilização do cinema enquanto máquina de realismo dá aqui lugar a uma mise-en-scène mais desencantada com os fenómenos de superfície, num percurso que se pressente já na proximidade de terrenos decididamente mais expressivos e surreais.

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