Cinco olhares pop sobre clássicos da Eurovisão
Seleção e texto: NUNO GALOPIM
Há muitas maneiras de evocar a história e o legado do Festival da Eurovisão. Podemos fazer as estatísticas das vitórias, dos pontos, das faltas de pontos… Podemos arrumar as canções por géneros, verificando a expressão das várias correntes ao longo de seis décadas de concursos. E até mesmo fazer um balanço das línguas mais cantadas e premiadas… Mas vamos aqui propor um outro percurso, através de versões que figuras maiores do panorama pop/rock fizeram de clássicos eurovisivos.
Itália, 1958
David Bowie, “Volare”
Era o terceiro ano em que se realizava o Festival da Eurovisão. E, sem a presença do Reino Unido, este foi, juntamente com o concurso de 1956, um dos dois em que não se escutou qualquer canção em língua inglesa. A vitória sorriu ao francês André Claveau, com Dors Mon Amour. Mas a canção que fez carreira global depois do concurso foi a representante da Itália. Cantada por Domenico Modugno (e vencedora em San Remo), Nel Blu Dipinto Di Blu, depois universalmente conhecida como Volare, tornou-se de resto no primeiro êxito maior com berço eurovisivo. A canção ganhou outras vidas depois da versão original, sendo gravada por inúmeras outras vozes. David Bowie assinou em 1986 uma das versões para a banda sonora do filme Absolute Beginers, de Julian Temple.
Luxemburgo, 1965
Arcade Fire, “Poupée de Cire, Poupée de Son”
A primeira das três vezes que Serge Gainsbourg levou uma canção sua à Eurovisão valeu ao Luxemburgo a sua segunda vitória e ao festival o primeiro momento de visibilidade maior de uma emergente cultura pop/rock (onde até então o território baladeiro era predominante). Foi em 1965 que, com uma letra cheia de duplos sentidos, Gainsbourg surgiu como autor de Poupée de Cire Poupée de Son, canção com a qual France Gall defendeu as cores do Luxemburgo, que terminou assim à frente do Reino Unido e França, os três primeiros depois da votação. Entre os concorrentes desse ano surgiam nomes como os de Udo Jürgens (que venceria pela Áustria em 1966), Bobby Solo (Itália) e Simone de Oliveira (que, com Sol de Inverno, colhia o primeiro ponto na história do certame para Portugal, atribuído pelo Mónaco). Serge Gainsbourg regressaria duas vezes mais como autor ao Eurofestival. Em 1969 com Boum Badaboum, canção que Minouche Barelli interpretou pelo Mónaco (e que terminaria em 5º lugar). Em 1989 surgiu finalmente pela França (a sua nacionalidade), com White & Black Blues, que Joelle Ursull levou ao 2º lugar. Anos depois, os canadianos Arcade Fire levaram o clássico de 1965 ao palco dos seus concertos.
Reino Unido, 1967
Lilly Allen, “Alfie” (inclui sample de “Puppet on a String”)
Ao que parece, das canções que tinha para apresentar para eventualmente levar à Eurovisão em 1967, Puppet on a String foi das que Sandie Shaw menos gostou… Mas acabou por ser essa a escolhida. E não foi pelo facto de a ter cantado descalça em pleno palco eurovisivo que se tornou num dos mais inesquecíveis clássicos pop dali nascidos. A canção deu a primeira vitória ao Reino Unido, num mesmo ano em que Portugal se fazia representar com O Vento Mudou, de Eduardo Nascimento e, pelo Luxemburgo, surgia Vicky Leandros (que venceria em 1972) com L’Amour Est Bleu. Sandie Shaw não era uma ilustre desconhecida quando, em 1967, representou o Reino Unido no Eurofestival. Com discografia desde 1964, tinha já conquistado um número um com (There’s) Always Something There To Remind Me, canção que em inícios dos anos 80 teria nova vida numa versão assinada pelos Naked Eyes. O tema com que triunfou em 1967 foi citado com um sample e uma nota cantada por Lilly Allen no tema Alfie.
Espanha, 1968
St. Etienne “La La La”
Espanha venceu por duas vezes o Festival da Eurovisão e quando isso aconteceu foi logo em dois anos consecutivos. Um deles foi o “caso” de 1969, no qual a vitória espanhola na verdade acabou partilhada com três outros países (Reino Unido, França e Holanda)… Um ano antes, era com La La La, na voz de Massiel, que Espanha vencia “a solo”, com uma canção que então batia o ultra-favorito Cliff Richard, que representava o Reino Unido com Congratulations. La La La na verdade teve uma génese atribulada já que Juan Manuel Serrat, a quem estava originalmente destinada, queria cantá-la em catalão, o que o poder vigente (ainda nos tempos de Franco) não viu com bons olhos, acabando por colocar Massiel em seu lugar. A canção teve grande impacte na altura e chegou a conhecer uma versão por Amália Rodrigues. Esta foi uma das muitas canções revisitadas em 1998 para o programa Eurotrash, surgindo em disco numa nova leitura (consideravelmente transformada) pelos St. Etienne.
Suécia, 1974
Doctor and The Medics “Waterloo”
Os Abba conheceram via Eurovisão a porta para uma carreira planetária. Já tinham tentado em 1973, mas haviam acabado em segundo lugar na final sueca. Em 1974, mascarados a rigor napoleónico, venceram o festival com… 24 pontos. A Itália, segunda classificada, com Gigliola Cinqueti, que tinha vencido dez anos antes com Non Ho L’Eta, acabou com 18 pontos. Portugal terminou em 14º (e último lugar) com E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, que somou magros três pontos. Convém aqui recordar que o sistema de votação era diferente, cada país tendo então dez pontos para distribuir, como entendesse, pelas demais canções. Podia dar todos os pontos a uma só canção. Ou cinco a uma, dois a outra e um a mais três. Ou quatro a uma e dois a duas ou um a mais duas. Ou correr dez a um ponto cada. Como mandasse a votação relativa de cada júri nacional… Um sistema polémico, que originou a tal vitória ex-aequo em 1969 (Espanha, Reino Unido, França e Holanda), o ano da Desfolhada de Simone de Oliveira, e protesto português e escandinavo no ano seguinte. Pois é verdade, Portugal tomou posição de força e ficou de fora, voluntariamente, em 1970, ano em que teria sido representado por Sérgio Borges (ex-Conjunto Académico João Paulo) com Onde Vais Rio Que Eu Canto. O sistema mudou definitivamente em 1975. Waterloo nunca desapareceu dos alinhementos das antologias de êxitos dos Abba e conheceu várias versões por outros músicos. Há uma, com um teledisco bem humorado, pelas Bananarama. Mas aqui recordamos outra, de teledisco cheio de nostalgia eurovisiva dos setentas, criada em 1986 pelos Doctor and The Medics.

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