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Valery Gergiev insiste na divulgação de Scriabin

Texto: NUNO GALOPIM

O maestro Valery Gergiev acaba de lançar, com a LSO, um segundo disco com gravações da obra orquestral de Alaxander Scriabin, assumindo assim um importante papel de divulgador da sua obra.

Vulto de relevo num período pungente para a história da música russa, colega de estudos de Rachmaninov, admirado mais tarde por Prokofiev e espírito contemporâneo de figuras como Stravinsky e Richard Strauss (que ajudaram a definir rumos fulcrais para a música do século XX), Alexander Scriabin (1872-1915) foi um compositor de trabalho reconhecido e aclamação visível em vida, visto então como talvez sendo o mais vanguardista dos compositores russos na aurora de mil e novecentos. Lanou mesmo sugestões e ideias antes até do efeito de choque gerado pelas colaborações do autor de A Sagração da Primavera para os Ballets Russes ou das visões de Arnold Schoenberg e contemporâneos que abriram terreno à atonalidade (e a uma das mais expressivas rotas que tomaria a invenção musical do século passado). Tudo isto num corpo de trabalhos que não escondeu a genética romântica que escutou na etapa de formação e o acompanhou, sobretudo em alguma da sua magnífica música orquestral.

Alexander Scriabin nasceu no seio de uma família aristocrata moscovita e antes mesmo de se fazer um notável pianista e compositor, descobriu na grande curiosidade pela mecânica do piano um foco prioritário das suas atenções. Estudou com Taneyev, foi colega de Rachmaninov e nas obras que compôs ainda antes da viragem do século cruzava já as heranças do romantismo com ecos de uma vivência cultural que animava a vibrante cena musical russa num tempo em que o desafio à criatividade estava na ordem do dia. Viajou, conheceu mundo, deu recitais como pianista e chegou mesmo a gravar perto de 20 rolos com interpretações de obras suas. De regresso à Rússia após uma longa temporada ausente, a sua música tateava novos caminhos, explorando sugestões que eventualmente o poderiam ter conduzido a descobertas mais marcantes, não fosse a morte tê-lo levado com apenas 43 anos.

Scriabin está contudo longe de figurar entre os nomes habitualmente referidos quando se fala da música que assinalou a passagem do século XIX para o século XX. Mas tal como o seu contemporâneo Gustav Mahler esteve arredado das atenções de muitos, durante anos a fio, até que o entusiasmo e dedicação de um maestro – em concreto Leonard Bernstein – o devolveu às salas de concerto e aos discos, reconhecendo-o o tempo como um dos maiores compositores de todos os tempos, talvez falte a Alexander Scriabin uma voz do presente que arregace as mangas e tome a sua obra como missão.

Talvez cabia ao maestro (russo) Valery Gergiev um papel novamente central na divulgação da obra de Scriabin. E depois de, em outubro do ano passado, ter sido editado um disco com gravações da terceira e quarta sinfonias,  2016 acolhe novo lançamentos sob a sua batuta, desta vez com as gravações das Sinfonias números 1 e 2, estreadas respetivamente em 1901 e 1902.

Estas edições representam mais um exemplo da vitalidade do catálogo da LSO Live, que a London Symphony Orchestra tem vindo a construir nos últimos anos, num modelo que estabelece relação direta entre orquestra e consumidor semelhante ao que o mesmo Gergiev tem aplicado com a orquestra do Teatro Mariinsky, de São Petesburgo, do qual é diretor artístico.

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