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A arte da espera

Texto: NUNO GALOPIM

Três anos depois de “Tsunami”, Stéphane Piatzsek e Jean Denis Pendanx voltam a encontrar-se numa narrativa que nos transporta aos mares do Pacífico na sequência de um acidente trágico.

O local pode parecer paradisíaco, mas acolhe uma narrativa que, apesar de dominada pela contemplação e a paciente espera, na verdade começa com a vertigem do perigo e um acontecimento trágico. O cenário em que decorre a história que encontramos em Le Maître des Crocodiles conduz-nos aos mares do Oceano Pacífico, em território da Indonésia. A ação, dividida em dois blocos, separados por 30 anos, decorre entre os mesmos mares e ilhas, vivendo logo ao início um momento de confronto com uma milícia local que na verdade controla toda uma ilha maior e as mais pequenas, desabitadas, que a rodeiam. E, depois, uma vez chegados ao destino, os elementos de uma equipa de documentaristas da vida subaquática são surpreendidos por um inesperado ataque de um grande crocodilo marinho que ataca e mata uma das recém-chegadas, em pleno mar, a metros daquele com quem ela vivia.

Um pouco como lembramos do Capitão Ahab do Moby Dick de Meleville, o companheiro da vítima desenvolve uma obsessão, estabelecendo uma ligação profunda para com o crocodilo, cuja presença nas águas se torna rapidamente notícia entre as comunidades da região. E, 30 anos, depois, ainda teimosamente focado em reencontrar o responsável pelo sucedido e tentar compreender alguns factos invulgares que se sucederam ao ataque, eis que regressa à mesma praia, da mesma ilha. E, ali, espera pelo crocodilo. E pelas respostas que procura obter.

Magnificamente ilustrado por desenho de Jean Denis Pendanx – que tem assinado vários álbuns para a Glénat e Futuropolis, mais do que uma vez tendo abordado narrativas marinhas -, Le Maître des Crocodiles é mais um belo exemplo da vitalidade (e expressão de personalidade) que a aguarela confere a uma proposta como a que aqui encontramos. O texto é de Stéphane Piatzsek, outro nome experiente, que nos últimos anos tem assinado tanto álbuns de um só volume como trabalhado em séries, como, respetivamente, são os casos recentes de L’Île des Justes e L’Aigle et La Salamandes, o primeiro a propor um olhar periférico (na Córsega) aos tempos da II Guerra Mundial, o segundo a representar mais uma incursão da BD pelas memórias e património (visual e narrativo) da Roma antiga.

Em Le Maître des Crocodiles os dois autores, que já antes tinham trabalhado juntos (basta lembrar Tsunami, de 2013), encontram novamente um entendimento perfeito entre as imagens e a condução de uma narrativa. O calor das cores (que traduz a geografia dos cenários) e o foco na demanda quase silenciosa do protagonista abrem espaço a todo um corpo de leituras e ressonâncias (literárias e filosóficas) e propõe aquilo a que poderíamos chamar a slow BD.

“Le Maître des Crocodiles”, de Stéphane Piatzsek e Jean Denis Pendanx, é uma edição de capa dura, de 142 páginas, pela Futuropolis.

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