Uma lagosta no hotel da crueldade
Texto: JOSÉ RAPOSO
As instituições enquanto fábricas de sentido são um dos grandes focos de atenção do cinema de Yorgos Lanthimos. Em Canino, três irmãos já de idade adulta vivem fechados em casa sujeitos a um sistema autoritário e perverso, estabelecido pelos pais, figuras de autoridade. Não menos bizarro, o filme que se segue, Alps, assenta numa premissa mórbida: enquanto “terapia” para ultrapassar o luto, um grupo de pessoas dedica-se a imitar recém-falecidos, tomando-lhes o lugar junto das suas famílias, “atenuando” assim o trauma da morte. Como se desconfiasse das potencialidades dos golpes e contragolpes do próprio enredo, Lanthimos propõe-nos situações. No lugar de uma história, uma atmosfera. Neste que é o seu primeiro filme internacional, rodado fora da sua Grécia natal, é justo reconhecer-lhe a criação de um universo próprio, habitado por personagens desligadas da sua própria condição e frequentemente acossados por regimes (ou aparatos) de controlo. No seu conjunto traçam uma panorâmica da natureza humana à imagem da nossa situação: contemporânea, desequilibrada, absurda.
Primeiro filme com a participação de atores vedeta (Colin Farrell, Rachel Weisz, John C. Reilly, entre outros) e realizado dentro dos parâmetros de uma industria, a escala de produção de A Lagosta joga a seu favor, como se o seu cinema fosse também uma máquina capaz de desarranjar os automatismos da ficção, uma lente que desenquadra a realidade. A curiosidade em ver um ator como Farrell em territórios mais arrojados do que o habitual traz consigo o prazer da transfiguração, do encontro da realidade com o seu duplo – o cinema. E este é também o filme de Lanthimos em que a alegria face à liberdade da perversão salta mais à vista. Há uma confiança assinalável na execução, de sublinhar aliás não apenas pelo novo contexto de produção, mas também pela forma como a atmosfera que perpassa o filme ser capaz de configurar ela mesma uma forma de estar no mundo. Não caindo no maneirismo por vezes forçado do anterior Alps, o absurdo da lagosta vem dar ânimo a uma leitura mais “desequilibrada” da contemporaneidade: nem politicamente revolucionários face aos problemas da civilização, nem particularmente convencidos dos milagres da produtividade – aqui estamos nós, os absurdos.
Semelhante a um jogo, o mecanismo narrativo é todo um programa: numa sociedade onde não é permitido ser-se solteiro ou viver sozinho, os indivíduos são obrigados a encontrar parceiro ao longo de uma estadia num hotel. Têm 45 dias para o fazer, e quem não o conseguir é transformado num animal à sua escolha e passará a viver numa floresta. É nesta floresta que se escondem aqueles que resistem à imposição de viver a dois. São, como é natural, um prémio cobiçado nas caçadas noturnas: por cada “fora-da-lei” que conseguirem matar, aqueles que procuram par podem ficar mais um dia no hotel.
Parte parábola, parte paródia, a narrativa de A Lagosta é um território fértil em situações vazias de sentido ou desprovidas de lógica. É nesse “espaço” dramático que o cinema de Lanthimos se sente mais à vontade, atirando-se à linguagem e aos jogos de livre associação de palavras com a liberdade de uma criança, alinhando na brincadeira da desordem das normas com uma insolência também ela dirigida ao espectador. A estrutura esquemática presente em A Lagosta tem tanto de normativo como de corrosivo: forçando os seus personagens a situações cruéis e “desumanas”, as regras dos seus filmes estão sempre num primeiro plano. Não há como ignorar os mecanismos dos filmes de Lanthimos, porque é disso mesmo que se trata: lançar duvidas sobre a ordem das coisas.

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