Elon Musk quer salvar a humanidade
Texto: JOÃO FERNANDES
Ao longo dos tempos, a palavra revolução tem sido frequentemente associada a períodos históricos de violência, crueldade e injustiça. Talvez por isso na indústria da tecnologia Elon Musk não seja descrito como revolucionário mas sim, eufemisticamente, como um especialista em “inovação disruptiva”. A linguagem é assim mais uma forma como os engenheiros de Silicon Valley – o uncanny valley – criam uma realidade própria em que todos os problemas têm solução. Basta apenas ter a aplicação certa instalada no telemóvel e ter fé que o caminho por eles traçado de forma perfeitamente lógica e racional leve efetivamente ao destino desejado.
Elon Musk não escapa à ânsia de salvar o mundo. Nas primeiras páginas da biografia escrita por Ashlee Vance, editada pela Vogais, é contado um encontro entre Musk e o jornalista autor do livro, em que o biografado partilha a sua grave preocupação com a possibilidade de a Google poder vir a criar uma inteligência artificial extremamente poderosa, que possa ditar o fim da humanidade. Umas páginas adiante, é também contado que Musk tem como principal objetivo levar a humanidade a outros planetas, nomeadamente a Marte: no seu cubículo tem duas imagens do planeta vermelho, uma tal como ele é hoje, e outro como ele espera que seja depois de um processo de terraformação, verde e habitável, e um porto de abrigo caso a espécie humana destrua o seu planeta ancestral. Mas Musk espera que esta seja apenas uma opção de recurso, uma garantia de que haverá vida para além do nosso planeta azul se a catástrofe vier a cair sobre nós, o que é apenas uma possibilidade e não um facto antecipado.
Essa é então a sua missão de vida, e para isso orientou toda a sua vida e os seus recursos financeiros. Depois de vender a sua parte na Paypal, empresa de pagamentos online que ajudou a fundar, decide utilizar o dinheiro que ganhou em três novas empresas: a SpaceX, a Tesla e a SolarCity.
A mais mediática é a SpaceX, que se dedica hoje em dia a desenvolver foguetões reutilizáveis e a aterrá-los numa plataforma no meio do mar. A Tesla, que deriva o seu nome do famoso cientista sérvio que costuma atrair teorias da conspiração e pseudo-ciência mais do que efetivo reconhecimento pelo seu estudo do eletromagnetismo, dedica-se a construir automóveis elétricos e baterias de alta eficiência para uso doméstico. A SolarCity é uma fornecedora de painéis solares, que podem ser utilizados, por exemplo, para carregar as baterias e os carros da Tesla.
Contudo a sua obsessão pelo destino final da humanidade, conjugado com um modo de vida ditado pelo pensamento hiper-racional em vista a máxima otimização de recursos, ajuda a traçar as linhas de outra parte do seu retrato: a de um ser com enormes capacidades cognitivas e enormes recursos financeiros, mas aparentemente desprovido de emoções ou até, talvez, de uma consciência moral. Espera que os seus trabalhadores partilhem o seu espírito de missão e cumpram as suas exigências verdadeiramente surreais. Queixa-se, no princípio do livro, de não ter tantas pessoas a trabalhar ao sábado quantas as gostava de ver; conta-se também no livro que repreendeu um trabalhador por ter faltado a um evento da empresa por ter ido assistir ao nascimento do filho, alegação entretanto desmentida publicamente por Musk.
Não é difícil crer que Ashlee Vance tenha tido a ajuda de muitos ex-empregados de Musk para pintar um retrato mais crítico do magnata da tecnologia, mas as críticas também se dirigem às suas pretensas ambições de mudar o mundo e o que já conseguiu de facto fazer. Pode ser dito que os automóveis da Tesla, apesar de terem uma excelente performance, estão ainda muito longe de serem acessíveis economicamente à maioria da população, e a SpaceX ainda está longe de não se tornar mais uma agência espacial privada de algum excêntrico bilionário. Pode também argumentar-se que as suas empresas ainda não deram origem a nenhuma inovação real, estando apenas a aproveitar tecnologias já existentes. Contudo tem de se ressalvar que os intentos de Musk têm gerado muita atenção, e muitas empresas do sector automóvel e energético estão atentas ao que ele está a fazer e têm-se movido de forma a competir com ele, criando também os seus modelos de carros elétricos ou painéis solares no mercado.
Elon Musk é claramente uma pessoa com inteligência excecional e com óbvio sucesso financeiro e profissional, mas apenas isso não será suficiente para determinar se é feliz ou tem uma vida boa. Para isso é preciso tentar conhecer melhor o homem em todas as suas facetas e complexidade, e tentar compreender o que o move. O livro de Ashlee Vance é um bom ponto de partida para o fazer.
“Elon Musk: O Génio Que Está a Inventar o Nosso Futuro”, de Ashlee Vance, é um livro de 416 páginas editado entre nós pela Vogais.

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