O ABC do amor, 34 anos depois
Texto: NUNO GALOPIM
Estamos habituados a isto no cinema. Mas, na música, as sequelas são coisa rara e não necessariamente boa (à partida lembro-me das séries The Labor of Love dos UB40, Marshall Mathers de Eminem ou Bat out of Hell dos Meat Loaf). Da vasta oferta que a pop made in UK nos deu a escutar na alvorada dos oitentas houve já, não sequelas, mas vários exemplos de procura, largos anos depois, de reencontro com linhas, sonoridades e formas que, então se materializaram em discos históricos. Umas vezes correu bem, noutras nem por isso. E se em All You Need is Now (2010) os Duran Duran criaram, com Mark Ronson na produção, e com considerável sucesso, o sucessor de Rio (1982) que na verdade nunca tinham feito, já em Brilliant (2012) os Ultravox não conseguiram senão recuperar os sons dos tempos de Rage In Eden (1981), em nada o álbum tenha juntando quaisquer argumentos significativos à obra do grupo. Mas com The Lexicon of Love II o que os ABC agora propõem é diferente: um reatar, 34 anos depois, do título, da sonoridade, da temática e até da linguagem gráfica, de um álbum que então deu que falar e acabou por ficar registado como um dos marcos do seu tempo.
Quando entraram em cena, em 1981 com o single Tears Are Not Enough, ao que se seguiram já em 1982 os mais visíveis The Look of Love ou Poison Arrow (todos eles integrados no alinhamento de The Lexicon of Love), os ABC apresentavam-se como um exemplo possível de um contraponto com uma pop de inspiração mais próxima no R&B face ao cenário então dominado quer pelos herdeiros diretos do glam rock, do post-punk e do disco (ou seja, os new romantics) e a primeira geração da pop electrónica local. Uma pop de travo clássico, suportada por arranjos que valorizavam as genéticas da soul e periferias que visitavam e pela voz segura de Martin Fry venceu por contraste e ganhou o seu lugar no mapa de então. O percurso seguinte não foi contudo nunca muito regular… Depois do desnorte que se sentia em Beauty Stab (1983) apontaram o rumo a uma relação contemporânea das electrónicas com heranças funk e soul num belo terceiro disco – How To Be a Millionaire (1985) – que só não foi mais longe pela algo equívoca pontual reinvenção do grupo como uma cartoon band. No álbum seguinte, Alphabet City (1987) recuperaram o cuidado na imagem, juntaram magníficas canções – como When Smokey Sings ou The Night You Murdered Love – mas, embora mantendo as demandas estéticas do álbum anterior, não repetiram um alinhamento tão suculento. Procuraram depois integrar as emergentes novas linguagens rítmicas e ferramentas digitais em Up (1989) e Abracadabra (1991), ambos tendo passado longe das atenções. Em 1997, quando regressaram com Skyscraping mostravam ali um dos raros discos de “reunião” que não envergonhava a memória da obra anterior. Mas de então para cá, além do inconsequente Traffic (2008), não mais fizeram nada senão revisitar a nostalgia de tempos mais fartos em ideias, sucesso e visibilidade. De certa forma, mesmo com um disco novo, é isso o que, num dos seus planos de afirmação, The Lexicon of Love II tenta agora fazer.
Os ABC de hoje não são os que em 1982 criaram o primeiro volume do díptico em que agora se transformou The Lexicon of Love. Na verdade, os elementos da formação que fez o álbum de estreia foram saindo um a um pouco depois, apenas Mark White tendo-se mantido a bordo (até 1992). E, da equipa que criou The Lexicon of Love, apenas voltou a bordo Anne Dudley que, uma vez mais, assinou os arranjos (embora não tenha tocado teclas, como no disco de 1982).
Se tecnicamente o disco recupera a alma, narrativa e cenografia do álbum original (apesar da trova de Trevor Horn por Gary Stevenson na produção) e se na voz, ainda segura, de Martin Fry tem outro dos argumentos favoráveis, é na forma de encarar a temática, por pontos de vista que refletem o tempo que passou que, na verdade, estão os valores mais interessantes de The Lexicon Of Love II. A experiência acumulada, que tanto pode dosear melancolia, nostalgia ou também saudável sarcasmo, alimenta as canções com uma verdade que impede uma aplicação “chapa cinco” do que poderia ser um mero exercício de nostalgia. A boa paleta de ingredientes e todo um quadro que defende os princípios que definem esta sequela nem sempre encontra contudo canções à altura da ideia (e de comparações com as de 1982). Há aqui belos momentos de imponente classicismo pop como os que se ouvem em The Flames of Desire, Singer Not The Song, The Love Inside The Love ou Brighter Than The Sun e, até, breves flirts além das fronteiras estéticas do projeto, como em I Believe In Love. Já Viva Love (que teve já direito a teledisco) não parece mais do que mero pastiche de um passado com 34 anos.
Fazer uma sequela, mais de três décadas depois, pode ser coisa na verdade mais arriscada do que favas contadas. Ouvido o disco, e mesmo estando longe de traduzir hoje o que foi o que está na base da ideia (e convenhamos que seria difícil que tal acontecesse), talvez os ABC de 2016, ou seja, Martin Fry, tenha aqui apresentado a sua carta de trunfo… Os velhos admiradores irão a jogo, certamente. Mas dificilmente conquistará novos seguidores.
ABC
“The Lexicon of Love II”
Virgin / Universal
★★★

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