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Não se arranja um ecrã para este arranha-céus?

Texto: NUNO GALOPIM

Tarda em ser anunciada uma data nacional para a estreia de “High Rise”, magnífica adaptação ao grande ecrã de “Arranha Céus”, um dos romances mais perturbantes de James G. Ballard

A escrita de James G. Ballard regressou este ano ao grande ecrã. Com um dos seus melhores livros como ponto de partida. E com filme que mantém o nome do escritor num patamar de rara excelência quando chega a hora do cinema olhar para a sua obra. Basta lembrar casos como Crash, assinado em 1996 por David Cronenberg ou mais autobiográfico O Império do Sol (1987), de Steven Spielberg, para, numa história de representação cinematográfica que passa ainda por Portugal com Aparelho Voador de Baixa Altitude (2012) de Solveig Nordlund, para agora inscrevermos High Rise, de Ben Wheatley, numa galeria invulgarmente notável.

Mas comecemos pelo livro (que a Elsinore lançou entre nós em 2015 numa bela tradução com magnífica capa)…

Arranha-Céus é, de certa forma, a história de uma catástrofe. Mas que nada deve aos elementos na hora de encontrar as causas de tudo. Aqui somos nós, e apenas nós (o homem, entenda-se), os motores dos desequilíbrios e progressiva espiral de loucura e caos, limitando-se Ballard a explorar a agressividade, egoísmo e sede de vingança que mora em potência em cada um e que, pelos códigos da vida em sociedade, são habitualmente guardados e escondidos dos demais vizinhos. Ao criar como universo para a ação um gigantesco arranha-céus de 40 andares, onde literalmente há uma manifestação física do que é uma classe alta, uma média e uma baixa (porque assim se arrumam nos apartamentos espalhados pelos vários andares), Ballard faz deste edifício e dos seus moradores o aqui, o quem e o agora, como se um antes e depois não existissem e nada mais ao seu redor tivesse relevância. Um pequeno problema, a sua interpretação segundo os preconceitos de “classe” e a natural divisão que se vai estabelecendo entre o “nós” e o “eles”, geram uma sucessão de ações, progressivamente mais agressivas, que transformam a pax normativa do edifício num palco de violência e morte. Os pontos de vista sobre a realidade turvam-se e perdem-se na turba. O caos instala-se. A ordem social cede a uma selvajaria desnorteada que perde mesmo a noção de objetivo.

Perturbante, o texto representa, como em outros romances de Ballard, um brilhante exercício de reflexão sobre o potencial associal que pode residir, nem que em pousio, em qualquer um de nós. Este, como tantos outros livros seus, inspiraram leitores que nas suas narrativas encontraram uma identificação. Não admira que entre a geração desencantada que viveu os finais dos anos 70 e a aurora dos 80 surgissem ecos desta escrita.

A alma 70s que a escrita traduz materializa-se aqui como herdeira de uma forma distópica de olhar para o futuro que a adaptação ao cinema de A Laranja Mecânica (1972), por Stalney Kubrick ajudou a fixar. Tal como no filme de Kubrick, também os ecos do que representava esteticamente um futuro urbano imaginado a partir do design e outras formas de pensar a imagem nos anos 70 ganha aqui forma. Mas se n’A Laranja Mecânica a projeção nascia na época em que essas imagens olhavam adiante, em High Rise há uma alma retro a cruzar os espaços do arranha-céus que serve de protagonista e cenário à narrativa.

Tal como no livro, mas ciente de que há todo um conjunto de concessões narrativas a fazer perante a necessidade de o condensar (sem que perca a sua essência), o filme parte de um patamar de aparente paraíso desenhado pelo homem para, numa progressiva espiral de desnorte, instalar um caos que, na verdade não é senão a expressão das tensões antes adormecidas junto de quem habitava os diversos pisos do arranha-céus.

Tom Hiddelston veste magnificamente o perfil racional e resoluto do Dr Robert Laing, por cujos olhos e dia a dia somos inicialmente levados a conhecer o arranha-céus, os seus espaços, habitantes, modos de vida, regras, permissões e vedações. Jeremy Irons, nos seus antípodas, é o arquiteto de tudo aquilo, e personifica a causa primeira de todo o jogo de desequilíbrios que mantinham tudo e todos numa ordem aparente até ao momento em que as tensões ultrapassaram a capacidade de as suster.

Será uma pena se um dos mais perturbantes (e assombrosos) filmes de 2016 não chegar às nossas salas de cinema. Até ver não tem ainda data marcada de estreia.

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