Para ouvir sem olhar para o passaporte
Texto: NUNO GALOPIM
Perguntam-me muitas vezes porque a nossa música pop/rock não consegue “furar” lá fora… Convém notar, antes de tudo mais, que há já carreiras internacionalizadas. Mas essencialmente fora do eixo Londres/Nova Iorque, a Via Appia da música pop (e arredores). E porquê? Permitam-me que vos responda com um disco… polaco. Sim, porque perante o silêncio mediático que ainda está a ser votado ao primeiro álbum internacional da cantora Brodka pelas publicações inglesas e americanas (que são a “voz” internacional da crítica e da divulgação) assim se nota como tudo o que transcende o espaço definido entre esse eixo, mais aqueles a quem a história da música gravada, pelo peso do sucesso, já deu carta de alforria (e na Europa só a França e Suécia gozam desse estatuto, ocasionalmente a Alemanha indo a jogo), continua a ser tratado como curiosidade periférica. Coisa que os nossos músicos e os nossos discos sabem bem o que é.
Não nos comportemos assim como os ingleses e americanos na hora de temer “invasores” no espaço de uma cultura pop/rock que pode ter ali nascido, mas entretanto se fez coisa de todo o mundo. E escutemos, sem o filtro Londres/Nova Iorque esta proposta que chega, repito, da Polónia.
Ela chama-se Monika Brodka, tem 29 anos e uma discografia que, após três álbuns em polaco agora, e pela Play It Again Sam, se aventura pela língua inglesa com Clashes. É verdade que deu que falar pela primeira vez num daqueles concursos de “talentos” televisivos que muitas vezes vivem de gostos e tendências tão formatadas que frequentemente premeiam mais potencialidades vocais do que propriamente… talentos criativos. Há exceções. E esta é uma delas.
Clashes é um disco surpreendente. Aqui se encontra tanto uma pop de dimensão épica e sinfonista (quase “glassiana”) como se escuta em Can’t Wait For Her como incursões por terrenos indie (como os de uns Bat For Lashes, Au Revoir Simone ou Lykke Li) em Horses, um dos singles já extraídos do alinhamento. Há uma dimensão quase onírica, capaz de encantamentos discretos talhados em diálogos entre a voz e cenografias essencialmente definidas por electrónicas, como se escuta em Mirror Mirror (e é caso para aplaudir esta bela escolha para faixa de abertura) ou Haiti. E, depois, ecos distantes de uma presença folk que acabam por traduzir relações identitárias, sem contudo entrar nos jogos mais habituais em terreno world music. Santa Muerte, Funeral ou Holy Holes são expressão desta última ideia, ao mesmo tempo que representam momentos onde a luminosidade dominante na verdade revela que, na alma do disco, habitam assombrações e melancolias que ajudam a sublinhar o vincar de um alinhamento que, mesmo aberto a várias frentes estéticas, define um caminho…
É claro que o disco ganhava maior coesão sem o instante de maior angulosidade de Up in the Hill nem o fulgor primordial, rugoso (à la Yeah Yeah Yeahs) de My Name Is Youth, que quase parecem mais expressão de um catálogo de possibilidades do que parte consequente do mundo que aqui se revela… Mesmo assim, escutado de fio a pavio, Clashes é uma das mais inesperadas e agradáveis surpresas desta Primavera.
Há uns anos George Michael, que iniciou a carreira a solo sob o “peso” juvenil da obra gravada com os Wham!, chamou ao seu segundo (e belo) álbum Listen Without Prejudice… A este primeiro álbum em língua inglesa de Brodka proponho que se chegue com a sugestão: para ouvir sem olhar para o passaporte. Porque esse passaporte pode aqui servir, num primeiro contacto, como mera curiosidade. Mas no fim, na verdade, o que escutamos não precisa de cauções de “exotismo” ou geografia menos habitual para nos colocar perante um belo exemplo de indie pop com personalidade que vale a pena reter entre o melhor da colheita das últimas semanas.
Brodka
“Clashes”
Play It Again Sam / Edel
★★★★


Deixe um comentário