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Quando Herzog perdeu um filme no meio do deserto

Texto: NUNO GALOPIM

“Rainha do Deserto” é um tremendo tiro ao lado assinado pelo veterano Werner Herzog. E nem mesmo um elenco de estrelas, com Nicole Kidman, James Franco ou Robert Pattison salva este biopic sobre Gertrud Bell.

Após uma série de olhares documentais sobre condenados que esperam a hora ditada pela sentença no corredor da morte, Werner Herzog regressa à ficção com um filme que tem por base uma figura real. Chamou-se Gertrud Bell (1868-1926) e, pelo trabalho de contactos que desenvolveu com clãs de beduínos, ficou conhecida como a equivalente no feminino de Lawrence da Arábia. As comparações possíveis com o magistral filme de David Lean (que em 1962 nos apresentou o ator Peter O’Toole no papel de T.E. Lawrence) ficam contudo pelas figuras e contexto – histórico e geográfico – face ao que Herzog agora nos mostra, havendo mesmo assim um breve plano aberto onde a música cita claramente a memória da partitura que Maurice Jarre compôs e que nos recorda aquele primeiro plano em que o filme de David Lean visita o deserto. Fora isso Queen of The Desert é uma sucessão de tiros ao lado e, no fim, uma tremenda desilusão.

Com um elenco de estrelas encabeçado por Nicole Kidman, e que a ela junta nomes como os de James Franco ou um constrangedor Robert Pattison (ainda por cima a tentar vestir a pele de T.E. Lawrence, o mesmo que O’Toole tornou num ícones da história do cinema), Queen of The Desert tinha matéria prima de primeira água a trabalhar. Não só a figura que quer revisitar, como a época em que o faz (sobretudo os tempos da Primeira Guerra Mundial) e os próprios cenários do deserto.

E aqui, e perante memórias de outros filmes de Herzog que tão bem souberam olhar os espaços em redor da câmara – como um Fitzcarraldo ou Cave of Forgotten Dreams – sem os reduzir a um postalinho, as expectativas caminhavam bem altas. Mas nem só desaproveita os lugares por onde passa (e Petra é um deles) como reduz a narrativa de vida da protagonista a um plano dominado pelos trágicos dois amores que Getrud viveu. A mulher que domina a cultura árabe, que aprende a lidar com os povos locais melhor do que o faziam os diplomatas de então e a carreira política que depois encetou são como que paragens num percurso que, na verdade, fecha a ação e até mesmo a expressão das personagens numa trama de romance com cenografia em travo exótico.

“Rainha do Deserto”
Realizador: Werner Herzog
Com: Nicole Kidman, James Franco, Robert Pattison

1 Comment on Quando Herzog perdeu um filme no meio do deserto

  1. Ainda não vi, mas realmente passa ao lado tendo em conta o elenco.

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