D∆WN: “Para mim títulos e rótulos são obsoletos. Ou gostas ou não gostas”
Texto: JOÃO MOÇO
Há pouco mais de um ano escrevia aqui que Blackheart, segundo álbum de estúdio da agora denominada D∆WN (Dawn Richard), era o disco que não só a colocava sem par no actual contexto r&b, como poderia pôr fim à falta de atenção crítica que a cantora teve até então. Um ano volvido e depois de toda a merecida aclamação, eis que a cantora chega a Portugal. Uma iniciativa rara poder ver ao vivo uma cantora deste espectro sonoro e num momento muito particular do seu percurso. Quinta-feira, dia 16, Dawn Richard subirá ao palco da Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, onde certamente irá antever Redemptionheart, o último capítulo da trilogia iniciada em 2013 com Goldenheart.
Nas últimas semanas têm sido várias as canções que a cantora tem libertado para a internet, desde a recente Wake Up, a Not Above That, passando por Serpentine Fire (em colaboração com Clark para a Adult Swim), Lemonade Lakes (com Oshi) ou o EP Infrared (criado em parceria com o produtor Kingdom). Todas estas novidades fazem parte do período que a própria cantora apelida de Red Era e que culminará com o lançamento de Redemptionheart. Mas cada canção, cada EP valem como um mundo só seu, como fez questão de frisar à Máquina de Escrever. “O EP vale por si mesmo. É um limbo que tem o seu próprio peso. A Red Era faz parte de uma arte maior. A Red Era tem que ver com a liberdade sonora, de género, de voz, de moda, de tecnologia. É um ponto culminante.”
De disco para disco e a cada canção nova que tem revelado, Dawn mostra-se cada vez mais distante das raízes do r&b de onde surgiu (recorde-se a girl band Danity Kane ou o projeto colossal ao lado de Diddy e Kalenna que foi o trio Diddy Dirty Money), habitando um mundo muito seu, mapeado entre as ambições avant-pop de nomes como Kate Bush e Peter Gabriel, o desvirtuamento pop de Björk, ou os flirts com várias frentes da música electrónica (como as recentes colaborações com produtores como Machinedrum, Kingdom ou et alie o reforçam). Daí que afirme: “Não me vejo como estando dentro do campo r&b”.
Esse seu mundo engloba a dança de Nova Orleães, de onde é natural, referências ao imaginário da ficção científica e a comics (o nome da girl band de que fez parte, Danity Kane, vem daí). Não lhe é por isso estranho que tenha decidido criar com os seus três primeiros álbuns uma trilogia, mesmo que esta seja uma prática rara nos dias que correm. “Sempre quis contar a história em três partes. Daí que eu não encare isto como algo invulgar. Apenas faço música, que tem várias dimensões. Não é tão linear como um género. Os livros têm séries, os quadros têm séries. E eu quis que os meus álbuns também pertencessem a uma [série]”.
A cantora chega inclusivamente a referir: “Para mim títulos e rótulos são obsoletos. Ou gostas ou não gostas”. Vê-se, por isso, como a artista sem barreiras que se tem constantemente revelado na sua música. Blackheart, por exemplo, é um disco que parte das fundações do r&b para estabelecer pontes com a rítmica do jungle e do juke, ao mesmo tempo que sampla dois temas do genérico de Twin Peaks (em Calypso), é um disco que nos remete para a new age imaginada por Peter Gabriel (oiça-se Projection), que traz a herança de Björk dos tempos de Vespertine e Medúlla sem caminhar pela via fetichista (Titans).
E hoje D∆WN tenta afastar-se o mais possível dessas gavetas estilísticas. “Acho que enquanto as pessoas precisarem de rotular algo para o compreender, todos nós continuaremos a sufocar o crescimento de carreiras. No momento em que for possível apreciar um artista sem julgamento, aí todos ganhamos”, disse.
Chega agora ao palco da Galeria Zé dos Bois com a expectativa entre o público das novidades que virão com Redemptionheart. A forma como os seus admiradores reagirão a novas canções pode ter um peso nas suas decisões aquando da conclusão desse álbum, como esclareceu: “Estou sempre aberta às suas reações. Se sinto que gravitam à volta de alguma coisa, observo isso”. O concerto será também um espelho desta Red Era. “Cada era tem uma história e uma sonoridade. O concerto é a expressão visual dessa história”.
Importantíssima continua a ser a dança. O vídeo do recente Wake Up é um reflexo disso. Ao longo de todo o percurso de D∆WN a dança enforma muito do que vivem as suas canções, a sua música. Algo que a própria confirma. “O movimento funciona como um narrador. Penso que a dança invoca a emoção e partilha uma outra parte da música. A cultura de Nova Orleães tem o seu próprio estilo e tento sempre incorporar algo disso nas minhas performances para partilhar a minha arte. Até porque as pessoas não conhecem esses movimentos e não viram essa cultura. É um estilo lindíssimo.”
O concerto que D∆WN apresentará esta quinta-feira na Galeria Zé dos Bois será, certamente, um acontecimento grandioso neste ano musical em Portugal. Uma oportunidade destas não surge todos os dias, até porque o seu percurso é demasiado idiossincrático. O concerto começa às 22h e os bilhetes custam 10 euros (12 euros no próprio dia).

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