“1999”: Quando Prince afina a sua visão pop
Texto: NUNO GALOPIM
Tal como já sucedera antes, da insatisfação de Prince perante o que viveu em palco durante a digressão que acompanhou o lançamento de Controversy (1981) surgiu uma vontade em renovar o grupo de músicos com quem poderia dar vida a novas canções. Estas, contudo, nasceram uma vez mais de um trabalho solitário feito durante meses a fio, entre a primavera e o verão de 1982, no estúdio que tinha montado na cave da sua casa e no qual foi criando um corpo de peças que revelavam a progressão de ideias já lançadas entre os seus dois últimos álbuns. Uma das principais marcas distintivas das novas canções era a presença bem mais evidente de uma caixa de ritmos que, usada pontualmente no álbum de 1981, se tornava numa das vozes mais marcantes das estruturas de percussão, conferindo-lhes uma alma sintética, mas intensa, que vincava mais ainda o interesse pela exploração de novas máquinas e novos sons que desde Dirty Mind vinham a ganhar protagonismo na sua música.
Ao mesmo tempo que ia trabalhando nas novas canções, manteve (embora alguns desentendimentos) um trabalho com os The Time e ajudou a formar um grupo feminino, a que chamaria Vanity 6. Foi contudo com o corpo de canções que tinha composto que teve uma primeira reunião com a editora, dela saindo apenas com uma observação que o fez pensar. Faltava, como em Dirty Mind e Controversy, uma canção que pudesse traduzir a alma de todo o disco, como se fosse o seu cartão de visita. Chegado a casa, e em apenas um dia, compôs e gravou o tema sugerido. Chamou-lhe 1999. E esse acabaria por ser também o título do álbum (e do primeiro single a dele ser extraído).
As novas canções eram mais extensas, revelando um domínio do tempo e uma capacidade de Prince em, uma vez lançado um groove, manter a pulsação da canção viva e ativa para lá das fronteiras mais “clássicas” da canção pop. Ao mesmo tempo, e apesar de uma ainda firme presença de heranças funk e r&b, os diálogos com as formas da pop e a presença mais clara de guitarras de escola rock sugeriam diálogos mais profundos com linguagens que poderiam levar esta música para lá do terreno no qual a obra de Prince conhecera os seus primeiros seguidores. E se 1999, o single, não foi na sua primeira expressão em single o êxito esperado, já Little Red Corvette, lançado na companhia de um teledisco eficaz, deu a Prince um êxito colossal que acabaria por elevar as vendas do álbum a um surpreendente patamar acima dos três milhões de unidades.
As vendas confirmavam assim a confiança que o músico pedira à editora quando sugerira que, com tantas e tão longas canções, 1999 deveria ser um álbum duplo, embora vendido ao preço de um LP simples. E iniciavam, sobretudo graças ao “confronto” entre Little Red Corvette e Beat It, lançados com poucas semanas de intervalo, uma “contenda” entre Prince e Michael Jackson que ajudaria também a construir a figura de dimensão global que o músico conquistaria entre 1999 e o sucessor Purple Rain.
Além destas duas canções, o álbum colocou em cena outros temas que ajudaram a reforçar um novo posicionamento de vistas ainda mais largas para a música de Prince. Delirious retomava o fulgor rockabilly feito de pop electrónica de Jack U Off. Let’s Pretend We’re Married explorava caminhos electro igualmente estimulantes e capazes de cativar atenções além dos universos primordiais das suas referências. E se D.M.S.R e Lady Cab Driver lembram que, mesmo em tempo de diálogos, o funk não abandonou a alma de Prince e International Lover e Free mantém acesa a sua relação com a balada de escola r&b (embora na segunda com um mais evidente subtexto rock), já nos extensos (e magníficos) Automatic e All The Critics Love U in New York reforça-se a busca de um espaço de exploração rítmica e instrumental mais minimalista (e dominada pelos sintetizadores), que pode estar na base de alguns desenvolvimentos futuros. Um desejo de transcender formas e explorar o potencial cenográfico das novas máquinas revela-se ainda em Something in the Water (Does Not Compute).
As novas demandas no som e nas formas são acompanhadas por um aprofundar de temáticas já antes visitadas, de explorações do corpo e do desejo a uma celebração algo hedonista de um fim (quase) anunciado, refletindo o tema-título ecos de um medo de aniquilação nuclear que marcou o quotidiano de muitos de nós na alvorada dos oitentas.
Ao quinto álbum Prince era não só um dos mais inventivos músicos do seu tempo como uma figura capaz de juntar uma pulsão criativa e todo um quadro de temas e sons menos canónicos a canções com enorme potencial de mercado. Com um novo álbum (e um filme) pelo caminho, em menos de um ano tornar-se-ia numa das estrelas maiores do firmamento pop de então.


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