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Nos 30 anos de “The Queen is Dead”

Texto: NUNO GALOPIM

Passam esta semana 30 anos sobre o lançamento de um dos álbuns mais significativos da obra dos The Smiths, há muito reconhecido também como uma referência maior da discografia da década de 80.

A história por vezes ensina-nos lições. E, nas páginas da sua Autobiography (sim, em inglês, porque a tradução não vai acontecer), Morrissey confessou que esteve quase a deixar de fora do alinhamento do álbum The Queen is Dead aquele que, com o tempo, se afirmaria num dos clássicos maiores da obra dos The Smiths, mesmo que sem ter figurado nas escolhas para edição em single em tempos de vida do grupo (houve uma edição nesse formato, mas apenas em 1992, para promover uma antologia). There Is a Light That Never Goes Out é, como ele ali confessa, a razão de uma “humilhação” com que ainda hoje vive já que, quando defendeu a sua exclusão do alinhamento, Johnny Marr terá respondido com um sorriso jocoso, o que colocou fim ao protesto e, consequentemente um lugar no alinhamento. O sorriso crítico deu assim ao disco esta canção e, nela, uma as muitas justificações possíveis dos muitos que apontam este como o melhor álbum dos The Smiths.

A história do disco teve uma outra cedência. Esta por Johnny Marr que, preocupado com as ressonâncias que o título poderia implicar, sugeriu a Morrissey se não aceitaria mudá-lo para Bigmouth Strikes Again (que era o título de uma das canções do alinhamento, e que chegou a ser lançada como single). Uma vez mais é no seu ensaio autobiográfico que Morrissey recorda o diferendo, mantendo firme a vontade em dar aquele título ao disco, garantindo-lhe que nada de mal aconteceria.

O álbum, que chamou um vendaval de opiniões apaixonadas (com exceções, como as de um jornal americano onde se lia que as três primeiras canções do álbum eram as piores que o crítico alguma vez escutara – o que é, digo eu, caso de consulta de otorrino), cimentava definitivamente o que os anteriores The Smiths (1984) e Meat is Murder (1985) tinham lançado e juntou ao catálogo do grupo mais uma mão cheia de canções que hoje são património maior das memórias dos oitentas. Além da canção que, por pouco, não era alternativa para dar título ao álbum e de The Boy With The Thorn In His Side, que foram então os dois singles chamados ao FM, o alinhamento guarda momentos maiores da obra do grupo como Frankly Mr. Shankly (um claro exemplo dos ecos dos sessentas aqui assimilados), Some Girls are Bigger Than Others, o próprio tema-título ou aquela outra que, por pouco, ficou de fora.

Às canções podemos ainda juntar as imagens. E entre as capas dos The Smiths, esta, com uma imagem de Alain Delon, em O Indomável, de Alain Cavalier (de 1964), é das mais icónicas.

Outro motivo cinéfilo para celebrar a memória de The Queen Is Dead pode encontrar-se no pequeno filme que Derek Jarman criou com três canções do álbum como banda sonora. Mais do que um teledisco – e para os The Smiths criou um para Panic – o filme de Jarman mostra como a demanda artística da banda encontrava perfeita identificação com as visões de um autor profundamente marcado pelas vivências do punk e que, como Morrissey, se afirmou como presença determinante na história da cultura pop da Inglaterra de então.

PS. Este texto foi originalmente apresentado num post da Máquina de Escrever que recordava dez álbuns de 1986

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