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Uma jóia que se quer cool

Texto: FRANCISCO GONÇALVES SILVA

Citando divergências com a editora Secretely Canadian, Ramona Gonzalez regressou ao lo-fi que a caracterizou no início de carreira e gravou, ao seu próprio ritmo e de consciência tranquila, “Liquid Cool”.

One Second of Love, de 2012 lançou Nite Jewel, o alter-ego da americana Ramona Gonzalez, para grandes digressões mundiais e fez correr muita tinta enquanto figurava em listas de artistas a manter de baixo de olho. Porém, parte disso deveu-se ao trabalho que a editora Secretely Canadian investiu em Jewel, o que segundo a artista, chegou a comprometer o seu produto final e o seu processo criativo.

Agora, com Liquid Cool, o seu terceiro longa-duração, Nite Jewel abandonou a direcção pop e R&B imposta pelos seus ex-superiores e tornou-se novamente independente, adoptando o synth-pop inocente e nostálgico que remete para horizontes semelhantes aos de Julia Holter, Cocteau Twins ou até traços de influência de Kate Bush, citando também Janet Jackson e Mariah Carey como referências. Se ouvirmos com atenção, todas estas influências se manifestam em Liquid Cool, seja na composição ou na produção, e estão presentes de uma forma ou outra neste novo registo, fazendo com que o universo de que Nite Jewel se apropriou e reformulou para si seja realmente algo muito único e pessoal.

Boo Hoo, o primeiro single do álbum que explora a directiva da solidão individual num mundo desconexo e uma das muitas baladas que compõe Liquid Cool, apresenta-nos de forma coerente a nova direcção que Nite Jewel escolheu. A sua voz frágil, entre batidas soltas, cria um ambiente aconchegante e introspectivo. Porém, é com Kiss The Screen que Jewel se mostra mais irreverente, fazendo de uma canção que retira influências de new wave, relatando um amor adolescente inocente e platónico, um hino de libertação.

É esta inocência que faz de Liquid Cool um álbum tão envolvente. Inicialmente apresentado com Nothing But Scenery, que nos faz perceber bem qual o tema desta nova narrativa, é ao chegar a Running Out Of Time, a derradeira balada, que percebemos a dimensão e a intensidade da história que Ramona nos conta através das suas canções simples mas com uma forte carga emocional.

Se por vezes se condena a mudança, neste caso o regresso às origens jogou a favor de Nite Jewel. É aqui que a artista mostra o que vale enquanto produtora e dona da sua criatividade, fazendo de Liquid Cool um álbum muito especial e que para muitos poderá ser uma jóia preciosa do ano de 2016, que se tem vindo a elevar a fasquia a cada mês que passa.

Nite Jewel
“Liquid Cool”
Gloriette Records
★★★★★

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