Novos argumentos para velhos anseios
Texto: NUNO GALOPIM
Se não querem que vos digam que “deviam ter lido os livros antes de ver o filme”, então não há como não adiar mais um encontro com mais uma das boas ideias de ficção científica nascidas entre o (sempre recomendável) catálogo da Image Comics. Com texto do canadiano Jeff Lemire (o mesmo de Trilliun, Essex County e Plutona com obra que se estende também aos domínios da Marvel e da DC Comics) e belíssimas ilustrações a aguarela por Dustin Nguyen, Descender tem uma adaptação ao grande ecrã em pré-produção através da Sony Pictures e com o argumentista responsável pela sequela de Tron a trabalhar num guião. Mas mesmo antes desta história chegar ao grande ecrã, vale a pena folhear os dois volumes já editados, que entre si juntam o que foi sendo revelado, entre os números 1 e 11 da série de comics que continua ativa.
A história coloca-nos num tempo futuro em que o universo habitado conhecido orbita diplomaticamente em redor dos nove mundos do Megacosmos que constituem o núcleo do United Galactic Council (uma coisa assim assim à la “federação” via Star Trek, mas nada contra). E tudo corre tranquilamente até ao dia em que, vindos não se sabe de onde, entidades mecânicas que acabam designadas como “harvesters”, chegam, ceifam a vida a milhares de milhões dos habitantes destes planetas e, tal como apareceram, saem de campo sem ai nem ui… Dez anos depois – ou seja, no presente em que a ação decorre – vivemos num tempo em que a resposta ao ataque das “máquinas” se materializou na forma de uma ordem de apagamento do mapa de todos os seres robotizados (que até então viviam em harmonia com aqueles que nasciam por via biológica por todos aqueles lugares). Há inclusivamente figuras cujo trabalho é mesmo o de os localizar e abater… Um pouco Philip K. Dick (e aqui a coisa tem o seu quê de Do Androids Dream of Electric Sheep, não é?). E é neste cruzamento de factos e contextos que conhecemos Tim-21, um robot de companhia muito ligado a um ser humano de quem está separado (e aqui batemos à porta de Brian Aldiss), que poderá vir a ser a chave para descodificar o que acontece. E que é quem, apesar de uma montagem em paralelo que acompanha a evolução na narrativa, define a espinha dorsal da história que se conta.
Apesar de cruzar uma série de elementos que atravessaram já outras criações sci-fi – e é natural que novas criações surjam incorporando e assimilando ideias anteriores – Descender consegue aliar uma narrativa com ritmo de ação e aventura a um trabalho elaborado de criação de contextos e personagens. Reativa um antigo debate entre o biológico e o mecânico segundo o medo que a ideia da inteligência artificial tantas vezes colocou já em cena. E materializa na figura do protagonista Tim-21 mais uma expressão daquela ideia de desejo de humanidade que nos faz recuar sempre às premissas do Pinóquio de Collodi.
O quer faz de Descender uma peça a reter entre o mais interessante da ficção científica que tem surgido via comics nos últimos tempos – sem contudo chegar ao patamar de um Trees, também da Image Comics – não é apenas o modo como Jeff Lemire parte de tantos ingredientes já antes usados para conseguir sabores novos numa história bem pensada entre os cenários e nas figuras que os habitam. As ilustrações de Dustin Nguyen são um valor acrescentado, traduzindo a sua técnica um sentido não apenas de fragilidade (biológica) como de leveza, que acentua os jogos de contrastes entre a dimensão humana (e dos outros seres em cena) e toda a carga dramática que a história coloca pela nossa frente ao virar de cada página.
É história a acompanhar, sim senhor… E venha o filme.


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