Uma banda sonora para o verão de 2016
Texto: NUNO GALOPIM
Já tinha esperado muito tempo por alguns álbuns (isto sem incluir projetos separados e mais tarde reunidos). David Bowie levou dez anos a fazer de The Next Day um (belíssimo) sucessor para Reality. E David Sylvian levou 12 anos a apresentar em Dead Bees on a Cake um verdadeiro sucessor (a solo) de Secrets of The Beehive… Os australianos The Avalanches abriram um fosso de 16 (sim, 16!) anos entre uma estreia que fez história no ano 2000 e um novo álbum que, agora devidamente escutado e assimilado, na verdade parece fazer crer que surgiu pouco depois desse já distante Since I Left You, e com aquela rara frescura que tantas vezes habita apenas os feitos que nascem em início de carreira, quando as visões outrora sonhadas começam a ganhar forma e a causar surpresa… Pois, 16 anos, depois, há ainda frescura e surpresa por aqui. E o verão de 2016 não podia ter pedido por melhor banda sonora.
O disco não é a tradução de 16 anos de férias nem de um grupo de músicos que andou de braços cruzados o tempo todo. Há até aqui alguns momentos cuja génese é contemporânea ou imediatamente posterior à do álbum que deixou boas memórias (e lições) para a arte da música feita de corte e colagem, entre as quais o delicioso Frontier Psychiatrist. Frankie Sinatra, que tem como peça fulcral na sua coluna vertebral um sample de um calypso dos anos 40, foi o primeiro aperitivo revelado (há algumas semanas) e desde logo deixava claro que o modus operandi e os horizontes de trabalho seriam semelhantes aos que haviam explorado no álbum de estreia.
O álbum, agora, confirma essa ideia. Mas junta não só a evidência de um árduo processo de procura, recorte e autorização legal de samples, assim como revela a colaboração de uma multidão de colaboradores, entre os quais Father John Misty, Ariel Pink, Jonathan Donahue (dos Mercury Rev), Toro Y Moi, David Berman (dos Silver Jews), Danny Brown, Camp Lo ou MF Doom, revelando um espaço de diálogo e entendimento entre os universos indie rock e do hip hop. Estas presenças – marcantes – não secundarizam contudo a riquíssima paleta de cores e formas que chegam através dos samples que são, como no disco de estreia, as células de toda a construção musical. E de peças esquecidas no tempo a ícones da história da música popular, como a banda sonora de Música no Coração ou o clássico Come Together, dos Beatles (numa interpretação de um coro de um liceu de Melbourne que careceu de autorização, que chegou através de amigos de amigos de amigos que os fizeram chegar a McCartney e a Yoko Ono), nascem os tijolos pelos quais os Avalanches fazem um álbum que está para a cultura do sampling como a visão que Brian Wilson procurava nos tempos em que viu no estúdio uma ferramenta ao serviço de outra dimensão ao alcance das suas canções.
Entre a faixas de Wilflower há espaço, horizontes largos, cores e experiências diversas e, como os músicos já sugeriram, aqueles contrastes entre a melancolia e alegria que fazem a história dos dias quentes. A extensão do disco e a multidão de elementos e sabores pedem tempo para uma boa digestão. Mas fica garantida uma boa montra de sensações e sabores… E um terreno para, pelas próximas semanas, ir fazendo descobertas a cada nova audição. Valeu a espera.
The Avalanches
“Wildflower”
XL Recordings
★★★★★


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