A idade adulta de Mitski
Texto: DANIEL BARRADAS
Começemos esta recensão por fazer alguma arrumação. Depois de Puberty 2, façam favor de colocar Mitski na mesma prateleira onde têm PJ Harvey, St. Vincent ou Throwing Muses. Para quem não tem prestado atenção à discreta carreira desta senhora, está na altura de se lhe render. Puberty 2 é um dos grandes discos deste ano e não é por sair a meio do Verão que deve passar despercebido.
Mitski já tinha surpreendido em 2014 com Bury me at makeout creek. Depois de dois álbuns de boas canções onde priveligiava a voz e o piano, Bury me… investia na guitarra eléctrica e levava-a numa direcção inusitada. Agora, Puberty 2 consegue finalmente o perfeito equilíbrio entre melodia, letra e arranjos que a elevam à primeira divisão das artistas a fazer rock no feminino. Ou grandes canções, ponto final.
A temática do álbum é pessoal, sentida e honesta. Mitski interroga-se enquanto mulher, enquanto asiática nos Estados Unidos, enquanto ser sexual. A faixa de abertura, Happy conta-nos logo uma história que questiona se a sua felicidade estará dependente de um homem (neste caso chamado literalmente “Happy”, que lhe traz bolachas e lhe dá orgasmos, mas que a deixa com uma casa suja para limpar).
Mais à frente, em Your best american girl, o que começa quase como uma canção de embalar transforma-se num desiludido hino rock. Que o video faça paródia às imagens de Lana del Rey é mais do que apropriado para alguém que não se revê nela como molde da “rapariga americana”.
O grande mérito de Puberty 2 é a capacidade de vestir as canções com arranjos que estão ao seu serviço e não se importam de pedir emprestado aos grandes. Se Happy faz uso da angulosidade melódica de St. Vincent também não se faz rogada em trazer um saxofone Bowiesco do anos 80. Em Once more to see you é fácil vermos uma Julee Cruise dos tempos de Twin Peaks. E um pouco por todo o lado, reconhecemos a energia de uma PJ Harvey dos seus tempos mais eléctricos.
Mas de tudo isto emerge a personalidade de Mitski que se estende de melodias e harmonias mais sacarinas a gritos rebeldes onde a guitarra eléctrica se torna uma extensão da angústia. De um álbum à beira da perfeição destaca-se talvez Crack baby como a pérola capaz de sintetizar o que faz de Mitski uma artista única que urge acolher e celebrar.
Puberty 2 revela-nos uma autora/cantora a tomar controlo sobre os seus poderes num espaço que se vai desdobrando e aumentando a cada canção. Aplaudimos e esperamos entusiasmados pelas suas aventuras no futuro.
Mitski
“Puberty 2”
Dead Oceans
★★★★★

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