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Grandes curtas: (1. Eduardo Williams)

Texto: NUNO GALOPIM

Uma seleção pessoal de curtas metragens. Começando com “Pude Ver Un Puma”, do argentino Eduardo Williams.

“Pude Ver Un Puma”
Eduardo Williams (Argentina) 2012

Onde estamos? Com quem estamos? Em que tempo estamos? O que se passou para ali chegarmos? Mais ainda do que no arrebatador A Estrada de Cormac McCarthy (o livro, naturalmente, que a adaptação cinema foi risível coisa menor), onde pelo menos sabíamos que tínhamos um pai, um filho, uma estrada e medo, em Pude Ver Un Puma nenhuma destas questões terá nunca resposta. Assim como não ficará nunca muito claro o que se passa (se bem que, depois de visto o filme várias vezes, acabei por nele encontrar o meu lugar e uma possível leitura, levando a bom porto um processo de reflexão sobre a obra que, afinal, acontece apenas com a melhor arte).

Vi Pude Ver Un Puma, que passou em 2012 Cannes, no Timishort 2013, um festival de curtas metragens na cidade de Timisoara, na Roménia. As primeiras imagens, num espantoso plano sequência (que nos apresenta magnificamente o espaço e quem o habita), colocam-nos entre telhados de uma qualquer zona degradada. Despreocupado, um grupo de rapazes fala. Fala de programas de divulgação científica que em tempos viram na televisão (um deles refere as visões de um mundo futuro, quando o homem já não existir e a natureza tiver voltado a vencer o planeta). Mais adiante um outro falará de tatuagens. De extensões enormes de tempo. De um outro documentário científico. Palavras aparentemente sem rumo, mas que na verdade são como os espaços desolados onde deambulam: fragmentos de um tempo que desmoronou sobre eles (e, no fundo, nós mesmos).

Aparentemente fragmentário, mas na realidade sugerindo um rumo concreto e uma evolução de passos entre espaços que nos levam da cidade e das suas ruínas a uma natureza, onde literalmente acabamos por cair (o solo reclamando-nos), Pude Ver Un Puma é uma experiência cinematográfica maior. Perturbante, mas ao mesmo sedutor, convida-nos a que nos percamos naquele tempo e naquele lugar. E nós rendemo-nos, mesmo que ninguém nos explique com quem vamos nem para onde nos dirigimos.

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