O revivalismo dos 80s com uma lufada de ar fresco
Texto: NUNO CARDOSO
O risco de se ser vítima do próprio sucesso está ao virar de cada esquina. E a televisão, que tem vivido nos últimos anos uma inegável nova era de ouro no que toca à ficção, começa provavelmente a ficar refém da sua popularidade. Num mercado tão agressivamente competitivo, como talvez nunca conheceu, começa a notar-se uma aposta dos responsáveis das estações cada vez maior em projetos assentes em fórmulas já testadas, os “remakes”, as sequelas, as prequelas e as cópias descaradas.
Felizmente, volta e meia, lá aparece uma série que marca verdadeiramente pela diferença. Não por ser especialmente inovadora – haverá alguma coisa ainda por inventar na ficção? – mas por ser uma oferta alternativa ao que já existe no mercado em que se insere.
Stranger Things é um desses casos. A nova trama original da Netflix (também já disponível na plataforma de “streaming” em Portugal) acaba de chegar com a sua primeira temporada de oito episódios. Não há qualquer dúvida: a série de drama, terror e ficção científica criada pelos Duffer Brothers assenta num assumido e óbvio revivalismo dos anos 80, relatando a história de uma criança que subitamente desaparece, e outra que entretanto surge, na pacata cidade no estado de Indiana, EUA, em 1983, por motivos sobrenaturais.
Com uma estética vintage cuidada e uma banda sonora bem escolhida da eletrónica, da pop a da rock dos anos 80, Stranger Things é quase uma ode a filmes como Goonies, E.T. – O Extraterrestre, Pesadelo em Elm Street ou Poltergeist. E ainda que seja uma série revivalista que bebe inspiração de conteúdos que já todos vimos, a verdade é que o projeto consegue criar um ADN próprio o suficiente para se destacar na restante oferta de programação televisiva.
Para quem cresceu e viveu nos anos 80, Stranger Things é um constante apelo à nostalgia, com as suas referências explícitas a personagens como Michael Meyers, He-Man e Yoda e a bandas como os The Clash. A protagonista da série, Winona Ryder, regressa em força no papel de Joyce, a mãe que, de repente, perde o seu filho mais novo sem saber porquê.
Com uma narrativa que evolui sem pressa e que deixa brilhar os pormenores e a fotografia, a trama gira em torno do desaparecimento do pequeno Will mas aborda em vasto leque de temáticas – uns mais à superfície do que outros – como o bullying, racismo, alcoolismo, famílias disfuncionais e com problemas financeiros e a crise da adolescência.
O elemento de terror em Stranger Things, não sendo omnipresente, equilibra o psicológico com o visível – e neste último caso, quando se mostra o sobrenatural, não se chega a roçar a infantilidade e o cliché de vários filmes de terror comerciais que inundam as salas de cinema.
Apesar da paixão assumida pelos anos 80, duas das mais icónicas séries da década de 90 parecem ter também aqui a sua influência. De Ficheiros Secretos, Stranger Things foi beber os elementos de ficção científica e as teorias de conspiração política. Já com Twin Peaks, tem em comum um mistério – no caso atual, um desaparecimento, no da trama de David Lynch, a morte de Laura Palmer – que coloca uma pacata cidade em choque e em desconcerto.
Resta esperar para ver – e isto é escrito por alguém que ainda só viu um terço da temporada – que Stranger Things não trilhe o mesmo caminho de Wayward Pines, que os media compararam, exageradamente, a um Twin Peaks moderno, e que, apesar de um promissor início, se deixou perder por devaneios de puro cliché, que parecem ter sido escritos em cima do joelho.

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