“Purple Rain”: banda sonora para a construção de uma estrela
Texto: NUNO GALOPIM
Apesar do sucesso obtido por 1999, Prince estava longe de ser uma estrela ou um artista com retorno garantido para um investimento maior quando fez saber que o seu próximo passo previa não apenas a criação de um álbum, mas também um filme, e que este teria de ser produzido e distribuído por um grande estúdio. A proposta foi tudo menos unânime junto de quem decidia internamente mas, já com alguns responsáveis na estrutura da Warner confiantes na sua visão e possibilidades, a ordem para avançar foi dada. E chegou numa altura não apenas em que Prince estava ainda a levar mais longe as pontes de diálogo com formas e sonoridades ligadas à música pop e rock de então, como num tempo de nova remodelação da banda que o acompanharia não apenas na estrada mas também nas imagens de um filme que, mesmo sendo uma ficção, cruzava os caminhos do protagonistas com alguns ecos autobiográficos, desenhando a construção de uma estrela. Um pouco como, mais de dez anos, antes, David Bowie havia sido ele mesmo o designer da figura em que se transformou.
O argumento do filme – que, tal como o álbum, se apresentaria como Purple Rain – começou a ser desenvolvido por William Blinn, que na altura estava a conhecer um momento de sucesso através da série televisiva Fame. Os encontros com Prince não foram pacíficos e, numa ocasião, o músico chegou mesmo a abandonar uma reunião a meio… Acabaria por pedir desculpa perante um pedido de afastamento de Blinn, este aceitando continuar depois de Prince lhe ter tocado, no carro, as canções em que estava a trabalhar para incluir no filme. O trabalho seria concluído com Alberto Magnoli, chamado a realizar, criando em Purple Rain a história de um músico em tempo de afirmação de um estatuto de popularidade maior, sugerindo como contexto uma cena musical em Minneapolis – que na verdade estava a ser criada por Prince e os que orbitavam à sua volta – e contando no elenco com figuras como as de Morris Day (vocalista dos The Time) ou com Apollonia, uma nova protegida do protagonista.
O álbum (ou seja, a banda sonora do filme) começara a nascer ainda durante a digressão de suporte a 1999 durante a qual Prince começou a filmar atuações. Um desses momentos registados em áudio e película daria origem à sequência final do alinhamento do disco, ao som de I Would Die 4 U, Baby I’m A Star e Purple Rain, balada longa, épica, que pouco depois se tornaria num dos ex-libris do músico.
1984 deu assim a Prince um momento de triunfo em várias frentes. O filme revelou-se um sucesso estrondoso (sobretudo nos EUA). Ao mesmo tempo When Doves Cry, que tinha sido criticado com desdém por um executivo da editora, dava-lhe um número um global, abrindo portas a igual destino de sucesso para um álbum que, ainda hoje, é incontornavelmente visto como um dos melhores de toda a (extensa) discografia de Prince.
O disco abre, via Let’s Go Crazy, com a sugestão de um hino religioso, que subitamente abre espaço a um furacão rock’n’roll. Fica dado assim o mote para todo um conjunto de choques, cruzamentos, surpresas, que fazem do alinhamento do disco um caso sério da história da música dos oitentas. E até mesmo com repercussões sociais quando, depois de chocada com a letra de Darling Nikki, Tipper Gore liderou um conjunto de ações que culminariam com a obrigação de apresentação de uma nota de alerta para o conteúdo verbal e temático de certas canções. Até aí o disco fez história!

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