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“Purple Rain”: banda sonora para a construção de uma estrela

Texto: NUNO GALOPIM

O álbum de 1984 de Prince, que serve de banda sonora ao filme com o mesmo título que o músico protagonizou, elevou o seu estatuto a um patamar de reconhecimento global.

Apesar do sucesso obtido por 1999, Prince estava longe de ser uma estrela ou um artista com retorno garantido para um investimento maior quando fez saber que o seu próximo passo previa não apenas a criação de um álbum, mas também um filme, e que este teria de ser produzido e distribuído por um grande estúdio. A proposta foi tudo menos unânime junto de quem decidia internamente mas, já com alguns responsáveis na estrutura da Warner confiantes na sua visão e possibilidades, a ordem para avançar foi dada. E chegou numa altura não apenas em que Prince estava ainda a levar mais longe as pontes de diálogo com formas e sonoridades ligadas à música pop e rock de então, como num tempo de nova remodelação da banda que o acompanharia não apenas na estrada mas também nas imagens de um filme que, mesmo sendo uma ficção, cruzava os caminhos do protagonistas com alguns ecos autobiográficos, desenhando a construção de uma estrela. Um pouco como, mais de dez anos, antes, David Bowie havia sido ele mesmo o designer da figura em que se transformou.

O argumento do filme – que, tal como o álbum, se apresentaria como Purple Rain – começou a ser desenvolvido por William Blinn, que na altura estava a conhecer um momento de sucesso através da série televisiva Fame. Os encontros com Prince não foram pacíficos e, numa ocasião, o músico chegou mesmo a abandonar uma reunião a meio… Acabaria por pedir desculpa perante um pedido de afastamento de Blinn, este aceitando continuar depois de Prince lhe ter tocado, no carro, as canções em que estava a trabalhar para incluir no filme. O trabalho seria concluído com Alberto Magnoli, chamado a realizar, criando em Purple Rain a história de um músico em tempo de afirmação de um estatuto de popularidade maior, sugerindo como contexto uma cena musical em Minneapolis – que na verdade estava a ser criada por Prince e os que orbitavam à sua volta – e contando no elenco com figuras como as de Morris Day (vocalista dos The Time) ou com Apollonia, uma nova protegida do protagonista.

O álbum (ou seja, a banda sonora do filme) começara a nascer ainda durante a digressão de suporte a 1999 durante a qual Prince começou a filmar atuações. Um desses momentos registados em áudio e película daria origem à sequência final do alinhamento do disco, ao som de I Would Die 4 U, Baby I’m A Star e Purple Rain, balada longa, épica, que pouco depois se tornaria num dos ex-libris do músico.

1984 deu assim a Prince um momento de triunfo em várias frentes. O filme revelou-se um sucesso estrondoso (sobretudo nos EUA). Ao mesmo tempo When Doves Cry, que tinha sido criticado com desdém por um executivo da editora, dava-lhe um número um global, abrindo portas a igual destino de sucesso para um álbum que, ainda hoje, é incontornavelmente visto como um dos melhores de toda a (extensa) discografia de Prince.

O disco abre, via Let’s Go Crazy, com a sugestão de um hino religioso, que subitamente abre espaço a um furacão rock’n’roll. Fica dado assim o mote para todo um conjunto de choques, cruzamentos, surpresas, que fazem do alinhamento do disco um caso sério da história da música dos oitentas. E até mesmo com repercussões sociais quando, depois de chocada com a letra de Darling Nikki, Tipper Gore liderou um conjunto de ações que culminariam com a obrigação de apresentação de uma nota de alerta para o conteúdo verbal e temático de certas canções. Até aí o disco fez história!

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